Centro de Apoio à Pessoa em Luto

sábado, 23 de maio de 2009

Comparar sofrimentos


O que doi mais?
Dizer que perdi uma parte de mim, ou explicar que tenho uma dor de tal maneira forte no meu coração, que me faz sofrer horrores?
Dizer que tenho um espaço vazio em mim que nunca mais vou preencher; ou sentir-me esmagado pelas recordações que tenho de quem partiu.

O que doi mais?
Sentirmo-nos sozinhos no nosso sofrimento, ou sentirmos que os outros não estão a sofrer como achamos que deviam de sofrer, e por isso, sentimo-nos revoltados, e por vezes com alguma raiva.

O que doi mais?
Sentir a angústia de sofrer por um passado que já não volta, ou sentir ansiedade por não poder realizar mais os projectos que tinhamos elaborado?

O que doi mais?
A dor dos pais? Dos filhos? Dos conjuges? ...

A dor que doi mais, para mim mesmo; é a dor que trago comigo, por isso não vale a pena compará-la com mais nenhuma, porque a minha dor é a maior de todas, porque é minha!

Por isso não vamos comparar sofrimentos de perda, pois esses sofrimentos são inerentes à história de vida de cada pessoa, ao significado que cada um construiu com o outro, aos projectos que tinha, as caricias que teve, à intensidade com que viveu, pois a medida do nosso amor é também uma das medida do nosso sofrimento. Se eu entender que a minha dor é a maior de todas para mim mesmo, e entender em simultâneo que a dor do outro, é a maior para ele mesmo, então entenderei que o principal é respeitar a forma como cada um sofre no silêncio do seu próprio ser. Respeitar os sentimentos de dor, de angústia, de revolta, por vezes de raiva e agressividade, outras vezes com surtos de choro e nostalgia, outras vezes ainda com uma enorme inércia ou com uma recusa da realidade, mas sempre com uma grande autênticidade na forma como o expressamos.
Por tudo isso, há que entender as diferentes formas de vivenciar, expressar e interpretar o sofrimento (tanto nosso como dos outros).

Há pessoas que reprimem o choro, mas no entanto choram sozinhas; há pessoas que são mais fortes que outras, mas no entanto tem momentos de fragilidade; há pessoas que são torres de marfim, mas no entanto essas torres um dia caiem; mas mesmo essas pessoas que á primeira vista não sofrem como a “maioria” das outras pessoas, mesmo essas, sofem tanto como essas outras; e sofrem pela medida do seu sentimento, e sofrem porque os outros não respeitam o seu sofrimento em silêncio, e sofrem porque não são compreendidas e aceites pela maneira autêntica como estão a sofrer, e sofrem porque não conseguem compreender como esses outros, que também sofreram e sofrem, não entendem que se possa sofrer de maneira diferente e sofrem porque além de sofrerem não têm ninguém para partilhar e entender o seu sofrimento logo, sofrem sozinhas.

Por isso meus amigos, e no meu entender o importante não é comparar sofrimentos, é aceitar o nosso próprio sofrimento, é compreender o sofrimento dos outros, que têm a sua maneira intima de sofrer, é partilhar as diferentes formas de sofrer para que todos nós nos apoiemos nesta longa caminhada que se for feita em conjunto é menos penosa, é menos longa é menos triste....

Seja como for, a caminhada de sofrimento que temos de fazer, iremos fazê-la; sozinhos ou acompanhados, é já uma opção de cada um, mas um coisa é certa, todos nós teremos que caminhar nesse trilho do sofrimento.

Na estrada da minha vida, perdi-te no meu olhar, e foi aí mesmo que te encontrei.

4 comentários:

Ana Diogo disse...

Bonitas palavras sentidas de alguém que conhece a dor mas que luta por a compreender.. um grande abraço de carinho e amizade da Tixa e Bruno

Dolores disse...

O Sofrimento transforma-se muitas vezes numa muralha à volta do nosso coração. Não é fácil para os outros transpôr essa muralha para levar afecto e calor. Muitas vezes abrirmos o nosso coração a alguém mais próximo "que respeite o nosso sofrimento", ajuda-nos a ultrapassar aquela dor tão profunda que nos fere e que nos suga a alma. Às vezes estamos tão cegos no nosso sofrimento que não vemos muitas mãos ao nosso redor que nos querem realmente ajudar a levantar, que gostam de nós, que nos querem ver novamente a sorrir. Mesmo a sofrer que tenhamos força para ajudarmo-nos a nós próprios e aos outros.

Maria Margarida disse...

Essa é a grande realidade.
Sofrimentos não se devem,não se podem comparar.
Quantas vezes por não querer estar com os meus sogros fui confrontada com a frase "já vistes como deve ser horrivel perder um filho?" É verdade, deve ser horrivel, pois sendo eu mae não consigo sequer imaginar essa perda!
Quantas vezes existe a vontade de dizer que a dor dos outros não esmorece a que sinto?
Que o que eu tinha idealizado nos meus sonhos de criança e mulher se romperam?
Só partilhando a dor com os nossos iguais, vamos acalentando a nossa alma.
Bem Hajam!

estrela disse...

è verdade sofrimentos não se comparam, sentem-se uns com menos força que outros, e alguns de uma maneira que nos arrebatam a força, a alegria de viver.Eu perdi o meu pai aos 15 anos, e desde então tudo o que queria na vida, era ter uma familia, era ser mãe e ter um pai para a minha filha, que infelizmente so conheceu o dela por 8 anos.Hoje vivo o meu sofrimento, a perda do meu pai, a perda do meu melhor amigo e do meu marido, e a revolta pela dor da minha filha que não merecia viver sem pai.Na realidade não tenho um viver muito agradavél pois sei que tenho de dar a "volta", mas na verdade não consigo encontrar a estrada