Centro de Apoio à Pessoa em Luto

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


A todos vocês, que passam por aqui e que vivem uma grande dor e saudade principalmente nesta época do ano, a Capelo de Lisboa, deseja um Feliz Natal com tudo de bom.... dentro dos possíveis.

domingo, 8 de novembro de 2009

Um tão breve adeus



Naquela manhã tudo foi diferente...


Levantei-me e decidi, ir ter com o teu corpo, ao sítio onde simbolicamente guardam o teu ser.
Apressei-me a tomar banho e a vestir-me (sinceramente são sei porque me apressei), como se tivesse marcado uma hora contigo; vaidoso que sou, vesti um fato como se fosse para um encontro formal, tratei da minha cara quebrada pela dureza de anos chorados, usei o meu prefume perferido e olhei para o espelho, para entender se estava tudo como eu queria. Incrivelmente nesse momento vi um resto de mim...


Um resto que restou das lágrimas que intensamente verti.
Um resto que restou dos sentimentos que vivi.
Um resto que restou do Ser que fui e que já não sou.
Um resto que restou da parte do absoluto da tua essência que deixaste em mim.


Ao vêr esse resto que restou; decidi continuar a contemplá-lo nostalgica e sofredoramente, e após 1 minuto que mais parecia uma eternidade no purgatório (sendo eu o meu próprio juíz); virei as costas ao resto que restou da sombra que fui e que nem isso já sou!


Com uma lágrima nos olhos, saí de casa e de uma forma revoltada comigo mesmo, bati com a porta em forma de protesto.


Saí de casa, e antes de ir ao nosso encontro marcado, decidi ir ter com Deus ( esse que nunca me abandonou, sempre me ouviu e que vive em mim mesmo).
Fui ter com ele a um dos meus sitios especiais (aqueles onde ele se revela para mim e onde em paz converçamos), a minha praia.


Era um dia com nevoeiro, com um cheirinho bom a marezia e com um frio arrepiante no ar, no entanto não chovia.
Fui até á beira-mar, toquei com as minhas mãos no elemento da eternidade, sentei-me, e deixei-me levar pelo mar. Esvaziei a minha cabeça, o meu coração, e simplesmente vivenciei o Momento Presente, o Aqui e o Agora.
Eu, deixei de ser eu; o mar, deixou de ser mar, e nós passámos a ser Deus, naquele Momento Presente no Aqui e no Agora.


Ao contrário do inicio da manhã em que fui até ao purgatório e que o tempo levou uma eternidade, agora nesta praia, neste momento especial, o tempo deixou de ser tempo e passou a ser o Agora.
Converçámos muito (eu e Deus), no entanto isso deixo reservado para uma outra história.
O certo é que depois dissso, fui ao encontro do meu objectivo primário; ir ter contigo.
E assim foi...


Entrei no cemitério, dirigi-me para o sítio onde está o teu corpo, e olhei-o....
Perdi-me no tempo a olha-lo.
Perdi-me na metamorfoze interna do meu devir inter e intra subjectivo.
Perdi-me intensidade na tua recordação que sempre será eternizada pela minha eternidade.
Chorei; chorei muito intensamente; chorei com uma raiva luzente, chorei porque enfim... o que realmente vim aqui fazer, foi despedir-me.


Não despedir-me de ti; pois sempre viverás em mim!
Não despedir-me da tua essência, pois essa nunca perece.
Não despedir-me das nossas recordações pois enriquecem o meu Ser.


- Meu amor vim despedir-me do meu sofrimento por ti!


Esse sofrimento que aniquilou a minha existência para uma não existência.
Esse sofrimento que abafou o Ser que fui, que já não sou e que nunca voltarei a Ser.
Esse sofrimento que manipula a minha existência para um vazio existencial.
Esse sofrimento que transformou a minha vida num mecanismo previsivel para não ter de sofrer.
Esse sofrimento que me fez encerrar em mim mesmo, sugando toda a beleza, alegria e amor que são intrínsecamente ligados à vida.
Esse sofrimento que rasgou as partes de mim mesmo em fragmentos.
Esse sofrimento que por ser tão intenso, substituiu a tua ausência no meu interior.
Esse sofrimento que me fez deixar de viver para simplesmente passar a sobreviver sem rumo e projecto.


Ora isso basta!!! Basta mesmo!!!


Vim aqui dar um GRITO DE LIBERDADE em relação a mim mesmo, que me faço sofrer pela forma como me recordo de ti!


Descobri que sou eu que me faço sofrer, nas malhas da ilusão de um sofrimento por ti.
Chega de me enganar a mim mesmo! Chega com esta cobardia de não aceitar o que tem de ser aceite porque já não ha forma de modificar. Chega de ter pena de mim mesmo nas profundezas do meu inconsciente. Chega de ter voluntáriamente renunciado à vida com a desculpa da tua morte! Chega de pôr as responsabilidade em ti, que tiveste de ir embora. Chega de não querer viver com medo de voltar a sofrer. Chega de desperdiçar esta dádiva dívina que é a vida, a nossa liberdade, a nossa autonomia e força de Ser e de estar no Aqui e no Agora.
Revoltado e conscientemente digo que basta!


A partir de hoje escolho o melhor de ti e o melhor de mim mesmo para voltar à vida e a Ser.
A partir de hoje escolho recordar-te com um sorriso nos meus lábios por tudo o que vivemos e o que me deste.
A partir de hoje escolho guardar-te sem sofrimento na evocação dos nossos sitios e momentos especiais.
A partir de hoje escolho voltar a reconstruir-me, a projectar-me positivamente no futuro, a viver intensamente o Aqui e o Agora.


A partir de hoje escolho, escolher-me!


Afinal nesta despedida, não me despedi realmente de ti, mas de mim mesmo num tão breve adeus.
NAMARIE

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um momento de poesia


A torre de marfim


Algumas pessoas
constroem à sua volta
uma torre de marfim.
Esta torre de marfim
tem por finalidade
destruir todos os fins;
destruir todos os sonhos.
Esta torre de marfim
encobre totalmente o céu,
expulsa todos os sentimentos fortes
e encobre-nos com um enorme véu negro;
completamente negro.
Depois de construída
nos ficamos fortes,
muito fortes;
tão fortes
que achamos o céu,
insignificante
a lua;
invisível ,
os sonhos;
uma verdade insustentável,
a música,
uma perda de tempo lamentável,
a vida;
uma rotina invejável,
os sentimentos;
um inimigo a abater
pois são eles que nos fazem sofrer!
Quando a gigantesca torre de marfim
estiver completamente construída
e nos entrarmos dentro dela,
jamais voltamos a sentir
seja o que for.
Por tudo isto,
destruí há muito a minha torre de marfim
e destruo continuamente
o recomeço das suas obras;
pois prefiro sofrer,
sentir melancolia,
nostalgia;
sonhar,
amar
e sentir-me não amado,
do que nada sentir.







Sentir as verdades; mudar as mentiras


Ás vezes
a vida é dura!
Um pai
que viola
uma filha inocente.
Uma mãe
que se droga
e que rouba de toda a gente.
Um bêbado
tão bêbado,
que bate, bate, bate numa mulher diferente.
Então ouvimos estas verdades,
bem duras
e pensamos,
pensamos…..
pensamos………….que são mentira
para não nos sentirmos atingidos.
Ás vezes
a vida é dura!
Um filho que nasce logo
com a sina
marcada da vida.
Sabemos de um amigo
que de repente……
Soube que lhe vai nascer um cancro na mente…..
assim tão de repente
como os dias nascem
e morrem.
Ouvimos falar
de um rico,
que perdeu toda a sua riqueza
nas mesas de jogo,
Sem qualquer beleza……
Logo em seguida matou-se com toda a sua nostálgica frieza,
deixando a família
mergulhada em dividas;
sem rumo,
sem barco,
sem capitão.
Então ouvimos estas verdades
bem duras
e fingimos
que não ouvimos,
para não sentirmos……qualquer sentimento.
Ás vezes
a vida é dura!
Um desempregado
até com vontade de trabalhar,
fica quebrado
por esta sociedade por mudar.
Ás vezes a vida é dura!
Uma pessoa que nos é querida,
Repentinamente morre……e faz-nos pensar!!!
Em nós; nos outros; no passado que passou e que ainda esta a passar.
Por vezes é preciso esta crueldade na vida para nos fazer mudar.
Então o tempo passa,
e todos nós sofremos; é ai então que começamos
a acreditar nas verdades
que sempre ouvimos
e nunca as quisemos compreender,
para não termos de sofrer.
Só que o tempo
continua a passar;
e nós continuamos a sofrer
e a morrer lentamente.
É ai então que começamos
a ignorar a realidade que sempre acreditámos
e que sempre ouvimos e aprendemos a aceitar graças
há virtude da ignorância.
A vida é dura....
Sim!
É triste……..
Sim!
Por vezes melancólica…………..
Sim!
Mas de que vale estes lamentos?
O que é preciso
É ouvirmos estas verdades
e sentirmos…..não interessa o quê…..
Para em seguida agirmos!!!!!!
Porque enfim
a vida é dura…..
Sim!
Mas podemos torna-la muito bela
como as cores de uma aguarela,
Basta sentirmos as verdades
E mudarmos as mentiras!!!!!!





Amigas e amigos, fui ao baú das minhas recordações buscar estes dois poemas que já fiz há algum tempo; poderia explicar porque escolhi estes e não outros, no entanto há certas coisas que so têm valor se formos nós mesmos a descobri-las.


Espero que descobram alguma mensagem nestes meus poemas.


Coragem para mudar o que percisa ser mudado meus amigos e amigas !

domingo, 25 de outubro de 2009

Sentimentos “redondos”


Sentimentos “redondos”

A raiva, a melancolia, a tristeza profunda, a angústia,o ódio (entre outros), são sentimentos que temos de ter a humildade de reconhecer que para os sentirmos, temos de abraçar esses sentimentos de uma forma “humana”, ou seja de uma forma afectiva, receptiva e com muita prudência.

Estes sentimentos além de serem “redondos”(ou seja, preenchem-nos na totalidade sem espaço para os outros sentimentos e emoções) são também intensos, e ao contrário de outros, alimentam-se deles mesmos e do nosso próprio sofrimento interno, fazendo com isso um ciclo de depêndencia em que a causa que provocou esse mesmo ciclo, reforça-o positivamente; alias além de o reforçar positivamente faz com que ele ganhe, cada vez mais, uma maior intensidade, isto porque quanto maior for esse sofrimento maior é a sensação de impotência do sofrente (ou seja daquele que sofre), quanto maior for esse sofrimento, menor é a capacidade de liberdade limitada que a pessoa tem; quanto maior for o sofrimento, menor é a vontade de viver e de Sêr.

Depois de perdermos alguém, emerge em nós um sentimento de raiva, de impotência, de descontrolo, de mortalidade, de tristeza profunda; e por fim, em alguns de nós o último estado de alma que fica é um vazio, um enorme vazio, um profundo e triste vazio, sem barulho, sem cores, sem cheiros, sem toques, sem ninguém.... No entanto rapidamente apercebemo-nos que esse vazio que sentimos e que tomou conta de nós, não é um vazio real, mas um vazio povoado pela nostalgia das nossas recordações internas.

Este vazio, não sendo um verdadeiro vazio, preenche intensamente o significado do nosso Ser; significado esse que deixou de ser um Ser para amar e viver, e passou a ser um Ser para relembrar e sofrer.

Ora há que romper com isto mesmo...há que gritar bem alto que estamos aqui para viver e sermos felizes, há que aproveitar o tempo que temos não para chorar o que fomos e o que tivemos, mas para vivermos o que tivermos que viver (seja isso o que for).

É muito mais fácil chorar e sofrer que viver, é mais fácil relembrar que voltar a construír, é mais fácil ficar no passado que percorrer o futuro, é mais fácil e comodo centrarmo-nos em nos mesmos que partilharmos o nosso Ser; é mais fácil sonhar que viver, é mais fácil ficar no chão depois de cair, do que levantarmo-nos novamente e tornarmos a cair; é mais facil não magoar ninguém por medo de magoarmos todos do que magoar alguém e perder a pessoa que magoamos.

E agora dizem alguns de vocês: - é fácil falar...

Sim é verdade, é fácil falar, o dificil é fazer, é concretizar aquilo que estou a dizer, é lutarmos cada um de nós pelo direito intrínseco de ser feliz e de ser Ser.

Sim é verdade é facil falar, o dificil é fazer...

Antes destas duas folhas que estou aqui a escrever estarem assim; antes estavam vazias; com o seu enorme manto branco existencial a sussurrarem-me ao ouvido – escreve...escreve...escreve.

Em vez de ter medo de escrever, em vez de ficar bloqueado no meu passado e no meu sofrer, em vez de desistir, em vez de ter deixado estas duas folhas em branco ; escrevi-as, partilhei-as com vocês que me estão a ler o que sinto, o que penso e sobretudo um pouco daquilo que sou.


Não se escondam nas malhas intensas do sofrimento, rompam com o ópio da dor, e da nostalgia negra .... lutem por vecês mesmos....vale sempre a pena, partilhar o que fomos, o que somos e sobretudo viver o resto do tempo que temos o melhor possível.

E como dizia o nosso querido Raul Solnado:” façam o favor de ser felizes!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

CAPELO DE LISBOA NA TVI

O Capelo de Lisboa vai estar presente no programa da manhã da TVI na sexta feira dia 2 de Outubro... Eu e dois utentes vamos dar o nosso testemunho sobre a vivência de processos de luto e vamos falar sobre o trabalho da associação... Estaremos no ar depois das 12 horas...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A minha outra existência (segunda parte)


E nadei...e nadei....e nadei tanto, que o lago mais parecia um mar. Até que parei de nadar pois desde que estou neste novo mundo senti-me pela primeira vez cansado.

Começei a boiar para descansar um pouco, mas o choro compulsivo continuava, vinha do mesmo sítio, mesmo do meio deste lago que mais parecia um mar.

Ouvi o choro com mais atenção e pareceu-me reconhecer a voz e o tipo de choro.

Apressei-me então, novamente a nadar naquela direcção...até que cheguei a meio do lago, mesmo sob o sitio exacto donde vinha o choro...

Bem; agora pensei para mim próprio; só me resta mergulhar e ver o que se passa.

Mas em vez de mergulhar completamente, decidi antes começar a boiar de cabeça virado para baixo, e abrir os olhos, então aconteceu uma coisa extraordinária, estava a ver-te na nossa casa, tu a olhares para uma foto minha, com um olhar de ternura e de nostalgia que me tocaste no meu coração. Nunca me vou esquecer desse momento.

Enquanto olhavas para a foto, começaste a tocar nela, e recomeçaste a chorar compulsivamente...foi aí que entendi, que o choro era teu... neste exacto momento em que tu começaste a chorar, senti que, no meu mundo começou a chover, e tu no teu mundo , deitas-te-te na nossa cama, e além de chorar começas-te a ficar desesperada, e eu no meu mundo começei a sentir que a chuva começou a cair com mais força e o lago, deixou de ser lago...e eu, que continuava a boiar de cabeça para baixo, comecei estranhamente a sentir ondas....o que era impossível pois estava num lago...

Comecei a sentir-me angustiado, pois estava sozinho, a ver-te sofrer e não conseguia fazer nada.
Queria gritar bem alto que estava bem, e que não te queria ver sofrer; queria dizer-te que estava num mundo bonito e que não te tinhas de preocupar, queria dizer-te que estou sozinho e percisava da vibração e da força do teu amor.
Sim, eu apercebi-me que nesta minha existência há uma ligação entre o teu mundo interno e o meu mundo externo de existência...

Tu choraste no teu mundo e aqui choveu... tu começaste a ficar desesperada e aqui começou a chover mais.... tu começaste a..... e aqui o lago transformou-se em mar com ondas revoltas...

Só tu me poderás salvar meu amor...ainda não sei bem como funcionam as regras, mas para mim é já claro que o teu estado interno emocional está ligado com a realidade externa da minha segunda existência.

Estava embrenhado a ver-te e a sentir-te, mas a relaidade externa da minha segunda existência era muito forte, e eu estava preocupado com todas as modificações que senti no meu mundo, por isso mesmo, decidi parar de boiar e emergir à superficie e ver o que se passava de facto.

Emergindo à superficie, abri os olhos, e uma vez mais supreendi-me com o que se estava a passar....

De facto o lago deixou de ser lago e passou a ser mar, tudo a minha volta era mar...e ele estava revolto, as ondas estavam grandes....o céu estava escuro, a chuva forte, o vento assobiava, as nuvens trovejavam, e eu comecei a ter medo...pela primeira vez comecei a ter frio... continuava a sentir-me cansado, e cada vez mais cansado...

Meu Deus como vou sair daqui; preciso tanto da ajuda; até que ouvi uma voz que ecoou do meu interior e me respondeu que a ajuda que eu percisava não era de Deus mas sim do meu amor.

Então, já com poucas forças decidi mergulhar no mar em direcção ao choro do meu amor.

Mergulhei...

E ao mergulhar já não estavas lá...emergi novamente á supreficie e reparei que deixei de ouvir o teu choro, no entanto na minha existência tudo estava igual....eu continuava no mar, com ondas revoltas, a chover...

Olhei para o céu e abriu-se uma clareira por entre as nuvens negras. E vi a tua imagem... estavas agora no cemitério...penso que perto da minha campa....e estavas num sofrimento atróz...sentaste-te perto da minha campa e choras-te...e abraçaste-me....até que gritaste com muita raiva, dor, e energia negativa....- Porque o levas-te meu Deus? Porque eu?Odeio esta vida! Já não quero mais viver!!!

Neste momento aconteceu uma coisa assustadora no meu mundo...bem ao longe começei a reparar num tufão gigantesco vindo na minha direcção...começei a ficar realmente preocupado e gelado de medo. Será que também posso morrer nesta existência?

Incrivelmente com os teus desabafos o meu mundo conseguiu ficar ainda mais emsombrado...além do tufão que vinha na minha direcção mesmo sobre mim, pairavam abutres e crovos...começei a sentir um cheiro forte a enxofre...a sentir um amargo na minha boca, sem ter comido nada, e reparei que no mar há minha volta estava um tubarão ....

Bem, pior que isto é impossível.

Começei a ter noção do meu tempo e do teu tempo...e reparei que o meu tempo é muito lento e o teu tempo é muito rápido...

No teu mundo continuavas a sofrer, e na minha existência o tufão continuava a aproximar-se de mim...
No teu mundo continuavas a sofrer, na minha existência eu continuava a estar cada vez mais perto da morte...

No teu mundo passou 2 anos no meu mundo passou 2 dias. Fechei os olhos, e voltei a abri-los, olhei novamente para o céu e vi-te num jardim a sorrir; e na minha existência começou a espreitar o sol; vi-te a olhar para o céu, agora sem amargura no coração e com muita ternura; no meu mundo o tufão deixou de existir, os abutres e os corvos voaram para longe, o vento deixou de assobiar assustadoramente , e o sol começou a brilhar com mais intensidade.

Eu começei a acreditar que ias conseguir salvar-me meu amor, com a força da tua existência.

Agora começei a boiar de cabeça virada para cima, à espera de algo...à espera de um sitio para poder sair deste mar (deste mar das tuas emoções).

E depois de boiar algum tempo de barriga para cima; fez-se como que por magia uma tela de cinema feita por um magnifico arco-íris quadrado....mas que verdadeiro espectáculo....sou obrigado a concluir que há sempre espaço para espantarmo-nos na imensidão desde nosso universo verdadeiramente infinito.

Dentro daquela tela feita por Deus; vi-te mais uma vez.
Estavas tão feliz meu amor....a correr na praia....abris-te os braços e deste um abraço forte seguido de um beijo prolongado naquele que penso que seja o teu companheiro.... neste exacto momento senti-te feliz....senti a vibração do teu amor....senti a verdadeira magia do universo (o amor)...

Depois de sentir isso, no meu mundo apareceu lá ao longe uma ilha magnificamente bela....mas eu escolhi continuar a olhar para a tela de arco-iris e contemplar-te mais um pouco...

Senti-me inundado com a tua felicidade....senti-me forte e completo por te ver bem, feliz e completa.....sinto-me bem porque sinto que estas bem.

Foste tão forte e corajosa que auxiliaste-me nesta minha segunda existência, a encontrar a minha ilha, o meu lugar, o meu paraíso.

Com a tua força enfrentas-te a depressão, com o nosso amor encontras-te um novo amor, com a tua esperança deste-me alento e conforto, com a tua alma deste-me uma nova existência.

Meu amor, salvaste-me, salvando-te a ti mesma.
Quero agradecer-te por me deixares viver a minha segunda existência; tendo tu força para viveres a tua primeira existência.

Agora despeço-me de ti sem me ouvires.....paro de boiar, começo a nadar em direcção a ilha....o arco-íris desaparece...e eu continuei a nadar....até que cheguei há ilha....e meu Deus que ilha....

A primeira coisa que faço depois de chegar a essa ilha é olhar para o sitio de onde vim.....olhar para o sitio onde estava o arco-íris...e fiquei simplesmente a olhar para lá.

Até que balbuciei o seguinte:
- Obrigado meu amor, sem ti e sem a tua força nunca tinha conseguido chegar até aqui, até sempre meu amor...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A minha outra existência (primeira parte)


Persenti que estava próximo o tempo de partir; sei que não é assim com toda a gente (por vezes nem tempo temos para sentir a percepção final), mas sei que foi assim comigo...

Assustei-me; não ... para dizer a verdade entrei em pánico pois não sabia para onde ia, nem o que ia encontar, nem como seria essa viajem.

Tudo o que sabia, é que quem partia não regressava, pelo menos não da mesma forma que nos habituamos a conhecer.

Tudo o que sabia é que ia para um lugar diferente daquele que conheço.

Tudo o que sabia, é que não tinha escolha e que teria mesmo de partir.

Mas sabendo tudo isso, apercebi-me que sabia muito pouco.

Apoderou-se de mim um misto de medo por não saber para onde vou e uma saudade apertada de todos os que tenho no meu coração, mesmo antes de partir.

Todas as certezas que tinha, passaram a ser uma neblina construida racionalmente e com nuvens densas de poderosas emoções encerradas no cofre da minha alma.

Tudo o que construi deixou de fazer sentido para mim; daquele momento a única verdade que existia era as pessoas que faziam parte do meu coração e que me ajudaram a trilhar a estrada da vida

Tudo o que possuía, deixei de possuír e tudo o que partilhei passou a existir, cristalizado na minha essência.

Tudo o que tinha deixei de ter; tudo o que sou continuei a ser...

Mesmo antes de partir nesta viajem, vi passar à minha frente todos os momentos significativos da minha vida; não faço ideia quanto tempo durou... foi como se visse um filme....isso também não é importante, o que te quero dizer é que nesse filme o mais significativo eras tu.... as emoções que partilhamos as histórias que vivemos os sonhos que perseguimos....

Não me despedi, porque era impossivel despedir-me, faria uma despedida de tal forma grandiosa que nunca chegaria a partir.

Simplesmente fechei os olhos, perdi a noção de tempo, de espaço, de história, de dor, sofrimento, saudade e de qualquer tipo de emoção; apoderou-se de mim o som mais forte do universo; o silêncio....

Até que de repente começei a ouvir o som do mar, depois ouvi umas gaivotas, cheirou-me a maresia, senti o calor do sol, voltei a sentir o meu corpo, abri os olhos e vi um céu azul como nunca tinha visto na minha exitência, levantei-me sem perceber onde estava.

Olhei ao meu redor e reparei que à minha frente estava um mar interminavelmente calmo, à minha esquerda o céu estava limpo e vislumbrei ao longe uma estrada feita de pedras que passava por entre as dunas, estrada essa que estranhamente cheirava a terra molhada, à minha direita o céu estava na sua hora mágica, com umas cores crepusculares que encheram a minha alma de alegria por ter visto tal beleza, não tão longe como a estrada de pedra, reparei que perto de mim existia uma floresta densa, com árvores de tal forma altas que alguns dos seus ramos pareciam pinacúlos; por trás de mim existia um deserto árido e desafiador, olhei para o céu e o sol estava bem forte e tórrido.

Mesmo continuando sem a noção do tempo, deparei-me com a minha primeira decisão, e mesmo se decidisse permanecer no mesmo sítio, mesmo assim essa não decisão, já seria em si mesmo uma decisão.

No entanto escolhi sentar-me e contemplar o mar à minha frente, enquanto que por vezes olhava para as cores mágicas da hora crepuscular à minha direita.

Não faço ideia quanto tempo estive ali a olhar, a comtemplar, a fugir da decisão, tentar uma reflexão, a rebuscar o meu coração.... e foi aí mesmo, quando a minha introspecção começou a entrar nas minhas emoções e trazer de volta os sentimentos encerrados no meu coração, foi nesse exacto momento que me levantei e comecei a caminhar para a floresta que estava à minha direita sob as cores mágicas daquela eterna hora crepuscular.

Até a pouco tempo ainda estava para saber se começei a caminhar por escolha, por medo, por intuição, por ter receio de me emocionar com o que tenho no coração, por ambição, curiosidade.... não sabia porque começei a andar nem porque fui para a direira.... mas foi o que de facto aconteceu.

Assim fui...caminhando com calma pois não tinha pressa, com receio por não saber o destino, com prudência porque não estava a perceber nada, com um vazio no coração pois faltavam muitas partes de mim encerradas no mundo que deixei para trás.

Antes de entrar na floresta que magicamente aparecia naquela praia, senti um desejo enorme de ter pelo menos alguém para me explicar o que raio se estava a passar, o que devia de fazer, para onde devia de ir, porque é que ainda não apareceu ninguém, nem nehum outro animal a não ser as gaivotas...naquele momento antes de entrar na floresta passou-me tantos pensamentos que fiquei quase que num estado embriagado de perguntas e incertezas....

Ri-me comigo próprio, pois afinal este sítio é como a vida que deixei para trás, as grandes decisões que temos de tomar, embora partilhadas, têm de ser decididas na solidão existencial do nosso mundo interno emocional.

Mesmo antes de entrar na floresta, além de ti, comecei a lembrar-me de muitos momentos significativos, não somente contigo mas com outras pessoas também tão importantes na minha vida como tu. Começei a relembrar de mim, da minha história de vida, dos meus sonhos, sofrimentos, enfim de tudo....e.....nostalgicamente e com muita ternura sorri (somente hoje sei porque sorri; mas isso fica para outra história); o meu coração começou a transbordar de coragem, a minha história de vida passada fundiu-se com este meu presente e entrei na floresta.
Depois do meu primeiro passo para dentro da floresta, parei, olhei para trás e deparei-me que; o que antes estava a trás de mim, agora ja não existia....tinha a certeza que somente tinha dado um passo, mas se de facto tivesse sido assim não poderia ter acontecido o que aconteceu... mais uma vez percebi que neste sítio as regras são outras; que eu ainda nem sei....

Decidi que o melhor seria esquecer o que estava nas minhas costas e começar a andar em frente...por muito bonito e significativo que tivesse sido o que estava nas minhas costas, agora deixou de estar e somente existe a floresta em todo o meu redor...

Comecei a andar em frente (seja la isso o que for e para onde me levar); e andei e andei e andei...sem nunca ter ganho a noção do tempo...e andei e andei e andei,,,, sem nunca me cansar ou ter sede ou ter sono.....e andei e andei e andei.....até que me questionei porque raio é que continuava a andar, até que foi ai que parei.

Sentei-me a olhar ao meu redor, e a paisagem que durante aquele tempo todo de caminhada permaneceu assustadoramente igual, de repente começou a mudar enquanto eu estava parado.

No meu lado direito apareceu-me um lago lindo, nem muito grande nem muito pequeno, era perfeito, e do meu lado esquerdo ao longe por entre as árvores reparei numa especie de gruta (pelo menos é o que me parecia, pois até hoje não sei bem o que era pois não escolhi o lago). Tanto um lado como o outro estavam sob o mesmo céu crepuscular.

Resolvi ir até ao lago; agora em passos mais firmes e apressados (pois já tinha um objectivo). À minha volta tudo mudou!

Deixei de ter lado esquerdo, direito e esqueci-me do que existia atrás de mim, estava focado somente no lago. Reparei que começei a caminhar cada vez mais rápido até que cheguei ao lago.

Voltei a sentir-me como uma criança que tinha ganho uma brincadeira imaginária.

Mas rápidamente isso mudou!
Quando cheguei lá não tinha um outro objectivo para continuar, não tinha outro sítio para onde ir (pois não havia caminhos e tudo era igual), não tinha nada para substituir aquele lago que ilusoriamente encheu o vazio do meu ser existencial perdido neste mundo onde não sabia as regras, nem os caminhos, distâncias....nada!!!

Pela primeira vez neste novo mundo fiquei desolado; angústiado; com medo; triste, apercebi-me que não faço mesmo ideia como isto funciona, seja isto o que for...

Deixei-me cair no chão com um semblante carregado; fiz com que um manto de depressão caisse sobre mim (pois somos nós os criadores tanto das ilusões como das depressões) e chorei....tristemente chorei....

Até que parei de chorar; enchuguei as minhas lágrimas olhei para o lago e reparei que depois de ter chegado ali, ainda não tinha contemplado verdadeiramente aquele lago ( tal como na minha vida antiga em que muitas vezes seguia focalizando os meus objectivos e quando os alcançava rapidamente substituia-os por outros sem nunca saborear sequer o objectivo alcançado ); e foi isso mesmo que começei a fazer, começei a contempla-lo, e ao começar a fazer isso, o meu interior acalmou-se, e no silêncio daquela floresta ouvi um choro complusivo que não era o meu.

Olhei ao meu redor e não vi ninguém; fiquei mais atento para ver se entendia de onde vinha o choro, até que me apercebi que o choro vinha do meio do lago.

Naquele momento, ao contrário do que já tinha passado, não me questionei de nada, nem dos perigos que podia correr e decidi apressadamente mergulhar no lago e nadei em direcção ao choro.

E assim fiz....

P.S – Caros amigos e amigas como este texto é muito grande resolvi reparti-lo e a continuação virá proximamente. Cumprimentos para todos.

domingo, 19 de julho de 2009

O tempo que temos


Mesmo que tivessemos todo o tempo do mundo; isso não seria suficiente para nos amarmos na medida do nosso amor.

Mesmo que tivessemos todo o tempo do mundo; não conseguiriamos beijar todos os beijos que desejamos dar; todos os mimos que queriamos trocar, todas as palavras que gostavamos de partilhar, todos os sonhos que queriamos realizar e todas as vidas que gostariamos de experimentar...

Mesmo que tivessemos todo o tempo do mundo; não seria suficiente para estarmos em silêncio um com o outro, para ouvirmos os segredos mais profundos do nosso ser, para espiarmos a culpa que até temos nas discussões que tivemos, para reconstruir um nós sem defeitos, enfim para sermos eternamente perfeitos e felizes.

Mesmo que tivessemos todo o tempo do mundo; não seria possível fintar a vida e a morte, não seria possível sermos únicamente nós, sem nenhum dos outros, não seria possível renegarmos o bom e o mal e vivermos únicamente num mundo ambigúo e sem a paixão dos sentimentos.

Mesmo que tivessemos todo o tempo do mundo; e já não temos; não conseguiriamos fugir à realidade, que tudo o que tem um início tem também um fim....E como não tivemos todo o tempo do mundo, conseguimos realmente amarmo-nos cada um a nossa maneira, com as nossas imperfeições, erros, angústias, discussões, lágrimas, beijos, caricias, abraços, palavras genuínas de amor, e é claro muita paixão, compreensão, empatia, mas principalmente, partilha.....

Partilhar o dia de trabalho, os gostos que cada um têm, as pequenas manias, as nossas tristezas, as palavras vazias, os sonhos e pesadelos, as grandes histórias que passaram na vida de cada um de nós, as pequenas fantasias, o nosso corpo, a nossa memória, enfim a nossa própria história.... E como não tivemos todo o tempo do mundo, vivemos intensamente o tempo que estivemos um com o outro, e vivemos um para o outro, e vivemos com paixão, com sentimentos exuberantes.... E como sabiamos que não iamos ter todo o tempo do mundo, construímos um projecto para o tempo que não sabiamos que tinhamos, construímos um castelo de areia para os nossos sonhos e uma muralha de barro para o nosso amor.... E como sabiamos que não tinhamos todo o tempo do mundo aproveitamos o tempo que tivemos.... E como sabiamos que não tinhamos todo o tempo do mundo, fingimos que até tinhamos, para vivermos na ilusão da eternidade impossível.

É disso mesmo que tenho saudades; da partilha, de ter-te a meu lado, de não ser perciso abrir a boca e mesmo assim tu entenderes o que eu digo entre o silêncio cúmplice dos apaixonados....

É disso mesmo que tenho saudades; das palavras que trocamos, dos segredos que ouvimos, das noites que não dormimos, das madrugadas acordadas ao toque dos mimos.
É disso mesmo que tenho saudades, de um outro diferente de mim, mas que faz parte de mim mesmo....

É disso mesmo que tenho saudades, de um outro diferente de mim, mas que faz de nós um todo em harmonia....

É disso mesmo que tenho saudades, simplesmente de ter-te a meu lado...

Ainda bem que não tivemos todo o tempo do mundo, pois amamo-nos à nossa medida.

Ainda bem que não tivemos todo o tempo do mundo, pois no tempo que tivemos completaste-me inteiramente todo o meu ser e a minha essência.

Ainda bem que não tivemos todo o tempo do mundo, pois se tivessemos, nós não seriamos nós, mas mais um pedaço da eternidade.

sábado, 11 de julho de 2009

A Viagem


A viagem

Se puder, gostaria de me levar,
gostaria ainda de levar comigo
todos os sentimentos,
alegrias e tristezas,
amores e belezas.
Todas elas são bem vindas
pois são sentimentos.
Gostaria de levar todas as cores
todos os pássaros
todos os peixes do mar
e pelo menos gostaria de levar,
o som de uma andorinha a cantar.
Mas também levava; música ,
e numa caixa feita de algodão um pouco de silêncio
para tentar recordar.
Há, já me ia esquecendo,
tinha que levar as minhas recordações,
todas elas,
sem qualquer distinção.
Todas elas cabiam numa grande arca.
Numa caixa de fósforo,
levava a minha beleza.
Numa caixa de cartão
levava as minhas ambições,
numa caixa de barro
levava o meu coração,
e numa caixa;
numa grande caixa de ferro
levava todos os meus sonhos.
O meu saber é pouco,
mas gostava de o conservar
como uma árvore.
Mas nesta viajem
teria também que levar
o mar e as estrelas,
teria que convencer a lua a me acompanhar,
e teria que levar o sol acorrentado.
Teria que levar os quadros amarrados.
É claro que é pouco provável conseguir transportar tudo,
mas se tiver de optar
por alguma delas,
prefiro lutar por todas.
Mas se afinal a viagem é tão importante
e o preço é tão alto,
então é justo eu conseguir levar tudo o que quero;
e afinal o que eu quero
é tão pouco;
ou será muito...?

Minhas amigas e amigos, decidi partilhar este meu poema com todos. Escrevi-o tinha 17 ou 18 anos mais ou menos não sei percisar bem. Nesta altura pensava muito nesta viagem, em como ela seria, o que iria vêr e sentir quando chegasse ao destino, em todas as coisas magnificas ou horriveis que poderia encontrar, pensava em todo o manto escuro que cobre de mistério esta viagem final.....Pensava, e umas vezes ria, outras chorava, mas a maior parte das vezes recordava os que tinham passado pela minha vida e me tinham marcado, pensava nas pessoas que estão na minha vida e fazem parte de mim, e pensava sobretudo em ti, que ainda nao te tinha descoberto nessa altura mas que já sabia da tua existência.

Entretanto fui crescendo, fui errando muito, fui apreendo aos poucos, fui vivendo sem rumo, até que te conheci. Nesta altura a vida passou a ter um rumo, o meu coração passou a ter uma companheira, o meu sorriso passou a ter um beijo e o meu abraço passou a ter um corpo.

Deixei de pensar nessa viagem magnificamente aterradora e misteriosa e passei a pensar em nós. Deixei de ter medo de morrer e passei a querer viver eternamente, deixei de sonhar para viver esse sonho contigo, deixei de me amar, para te amar completamente e o mais genuínamente possivel.

Foi neste momento que pensei que eramos imortais, que iriamos viver uma felicidade perpetuada nos momentos mágicos que construimos, numa certeza ilusória que a vida é magnificamente bela e sem dor. Foi exactamente neste momento de exaltação que o sonho morreu e a realidade apareceu!

Decidiste fazer essa viagem (ou alguém ou algo te conveceu a viajar ainda estou para saber) final, sem um adeus ou um até logo ou mesmo um até sempre....foste-te embora tal como chegaste; através das impermanências desta vida....

Voaste para longe, e eu não sei voar; partiste numa viagem onde não te posso acompanhar; chegaste a um destino onde nem sequer consigo imaginar.

Mas a realidade é que te foste embora, partiste nessa viagem final; simplesmente espero que tenhas feito uma boa viagem, simplesmente espero que tenhas encontrado o que desejasses e o que mereces, simplesmente espero que sejas feliz, simplesmente espero que esperes por mim da forma mais genuína de se esperar, que é no meu entender não esperando.

Boa viagem.....

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Formas simples de ajudar a lidar com o sofrimento e a perda


Existem formas simples de ajudar alguém em processo de luto, formas ao alcance de cada um de nós. Exemplos dessas ajudas são:

1. No início, a pessoa que vivencia a perda pode precisar de ajuda nas decisões mais simples. Pode apreciar a ajuda prática (ajuda em burocracias, preparação de refeições...).

2. Ser sensível às diferenças culturais e religiosas e procurar informação sobre costumes, rituais e práticas de modo a apoiar a pessoa (legitimar o que a pessoa está a sentir).

3. Dar a conhecer à pessoa que se está preparado para aceitar aquilo que a pessoa quiser partilhar connosco: as suas lágrimas, memórias, a sua raiva. Não brincar com a pessoa. Um ouvinte apoiante é o que elas precisam.

4. Ajudar a pessoa a perceber as tarefas/fortmas de coping (de lidar) com a perda de modo a que elas possam entender aquilo que se passa com elas.

5. Estar constantemente atento sobre o significado da perda para a pessoa nesta altura (e.g. uma pessoa que se divorcia, cujos filhos saem de casa e que depois perde o cão pode ficar profundamente deprimida pela última perda significar o elo final da cadeia de perdas).

Tarefas de coping no luto

Tarefa 1: Aceitar a perda como algo real
As pessoas tendem a oscilar entre a negação e a aceitação. A aceitação pode ser mais difícil em situações como o divórcio em que existe a possibilidade da pessoa regressar. É um período frequentemente descrito como "irreal" e em que a pessoa que vivencia a perda se sente desligada de tudo e esmagada pelo sofrimento.

Tarefa 2: Vivenciar a dor do desconsolo/sofrimento

Esta tarefa está associada com um tempo de sentimentos extremos misturados. Para a maioria das pessoas, os sentimentos regressam rapidamente após a perda e podem sentir dor física intensa, frequentemente descrita como estando no cerne do estômago ou à volta do coração. Isto é frequentemente acompanhado por uma saudade intensa e procura da pessoa. Visitar locais associados a essa pessoa, chamar o seu nome e chorar fazem parte da saudade. A pessoa pode também sentir que está a ficar "maluca" com a intensidade da emoção. Com a aceitação da perda pode vir a raiva - pela pessoa que morreu, raiva consigo próprio, com Deus,... Pode ainda sentir-se tensa e irritável, ou vivenciar sentimentos de ansiedade e culpa.

Tarefa 3: Ajustar-se à vida sem a pessoa

Antes da pessoa que vivencia a perda ser capaz de começar a adaptar-se, entra num período alternado com a segunda tarefa, em que tudo parece vazio e supérfulo. Tem falta de interesse por tudo e por vezes deseja morrer. Eventualmente, a pessoa começa a descobrir novos modos de coping, novos padrões e objectivos de vida. Isto é visível em comportamentos que mostram que estão preparadas para prosseguir em frente, como tirar férias, recordar o apartamento, alterar a aparência física, ter um novo passatempo...

Tarefa 4: Aceitar a perda

Quando a pessoa aceita a perda, está então pronta para vivê-la novamente, e para fazer novas relações, aceitar novos desafios. O passado e os entes queridos são ainda lembrados e estimados pela pessoa mas estes sentimentos já não impedem a pessoa de apreciar a vida quando os sente!

sábado, 20 de junho de 2009

Tenho tantas saudades tuas meu amor......



Tenho tantas saudades tuas meu amor, que os meus olhos enchem-se do mais puro que há em mim. São saudades que evadem todo o meu ser e faz com que eu me sinta preenchido por este sentimento verdadeiramente grandioso que é a saudade.

Tenho tantas saudades tuas meu amor, das histórias que tivemos, dos muitos momentos significativos que passamos, das músicas que escolhemos para nós, das piádas privadas que tinhamos e que só nós entendiamos, de tudo o que construimos e do muito que projectamos.

Tenho tantas saudaades tuas meu amor, e dos sítios de onde privávamos, de estarmos perto do mar a olha-lo e a namorar, de passear na praia e sorrir para as ondas num momento de cumplicidade ímpar, de andarmos só por andar para termos uma desculpa para estarmos juntos, de comtemplar o pôr-do-sol e fundirmo-nos num só nesse momento tão mágico que é a hora do crepúsculo.

Tenho mesmo tantas saudades tuas ... do teu olhar, das tuas caricias, do teu beijo cumplici de amante, do teu abraço de conforto de amigo, da tua palavra sincera de honestidade, dos silêncios acompanhados que tivemos, enfim de ti e da pessoa que eu era quando estava contigo.

Tenho tantas saudades tuas que tenho de te pedir ajuda neste momento tão dificil da minha vida. Sabes meu amor com todas estas saudades que tenho de ti, perdi-me de mim.....já não sei o que sou nem para onde vou nem muito menos o que quero.....com estas saudades tuas que me evadem e tomaram conta do meu ser, deixei de me conseguir construir e estou a despedaçar-me lentamente dia-após dia....

Estas saudades que tenho de ti, não me fazem sorrir, mas sim chorar, estas saudades que tenho de ti não me fazem viver, mas sim morrer diariamente, estas saudades que tenho de ti, não me fazem construir mas sim desconstruir-me, estas saudades que tenho de ti, nao me fazem feliz, mas sim fazem-me sofrer muito e muito mais por nao conseguir viver.

Por isso meu amor venho dizer-te que tenho de parar de ter estas saudades assim, para as transformar em saudades que me façam sorrir, sonhar, projectar-me positivamente, e enfim voltar a viver e a encontrar-me existencialmente.

Vou fazer isso porque sei que me amas-te e ainda me amas estejas onde estiveres, e que a última coisa que irias querer é que eu me destruisse, por isso, por mim e porque a vida é um milagre, vou ter forças para aprender a transformar as saudades que me fazem sofrer, numas saudades em que me façam sorrir e voltar a amar.

Eu sei que ficarás muito feliz com esta minha decisão, sempre decidimos tudo em conjunto, por isso meu amor quero te dizer do fundo do meu coração e com os meus olhos com muitas lágrimas presas, que gostaria muito de ter a tua ajuda nesta minha decisão.....

Amo-te muito meu amor e muito mais te continuarei a amar, mas sem sofrer pois perciso de viver.
Irei ter sempre saudades tuas meu amor, mas apartir de hoje vou transformá-las em algo que me fará acompanhar o meu caminho existencial e não no fardo pesado de lágrimas que até hoje estas saudades que sinto por ti tem sido.

Nos tivemos a felicidade de nos termos um ao outro, de nos amarmos genuinamente no nosso tempo, de sonharmos e vivermos o nosso sonho e por isso tenho saudades, mas ainda bem que as tenho; pois se não as tivesse é porque não tinhamos tido a sorte de nos amarmos.

Sabes meu amor, ainda bem que tenho saudades das coisas que tive a felicidade de viver contigo, por isso aquilo que sofremos não é um fardo que me vai matar, mas uma esperança que me fará viver.

Tenho tantas saudades tuas meu amor e amo-te tanto....obrigado por compreenderes e por me ajudares a transformar as minhas saudades.

Amo-te !

terça-feira, 26 de maio de 2009

A importância das pequenas batalhas



Nenhuma grande guerra se ganha, se não se der a verdadeira importância ás pequenas batalhas.

De facto quando entramos num processo de luto, começamos a depararmo-nos com uma grande guerra....e tal como todas as tempestades e guerras, chegam sem avisar!

Entramos talvez, na grande guerra da nossa vida, a guerra que temos de fazer contra nós mesmos, a guerra onde o nosso grande e poderoso inimigo somos nós próprios, o nosso passado, os nossos medos e angústias, os nossos projectos futuros, a maneira como viviamos no passado, e a grande nostalgia de termos a consciência de já não sermos a pessoas que fomos.

Embebidos no nosso sofrimento, começamos a quebrar...cada dia, deixa de ser um dia; e passa simplesmente a ser um dia a preto e branco, cada vez que acordamos, passa a ser uma batalha porque pensamos que é dificil acordar; cada vez que vamos para a rua passa a ser uma pequena batalha porque é dificil recordar, cada vez que voltamos para casa é uma grande batalha porque é muito dificil chorar......

De início começamos a perder todas as pequenas e grandes batalhas; e começamos a ficar “afundados” nas nossas magoas, recordações, ansiedades, angústias, ilusões; depois, porque o sofrimento fica mais intenso, ficamos cansados, por vezes deprimidos, muitas vezes sem esperança, e demasiadas vezes sentimo-nos sozinhos e incompreendidos.

É já nesta altura que a vida para nós deixa de ser vivida existencialmente e significativamente e passa a ser apenas um esforço de sobrevivência.
É ja nesta altura que além de sofrer por aquele/a que perdi, sofro também por me estar a perder dentro do milagre singular que é a existencia humana. É ja nesta altura em que além de sofrer pela perda, sofro também por não saber sofrer e lutar.

Amigos e amigas, num processo de luto sofre-se muito intensamente, e é por isso que cada um de nós tem de fazer a sua parte; levantar a cabeça e lutar as suas pequenas batalhas; pois são essas que são verdadeiramente importantes para podermos emergir novamente para a vida.
Quando nos levantamos temos de travar logo a nossa primeira batalha para nos levantarmos bem!!! Com energia, com esperança, com fé, com projectos...e mesmo se acordarmos menos bem....pois a batalha será ainda maior, pois temos a oportunidade de mudar, ficando mais bem dispostos, fazendo um esforço genuíno; pois é importante sofrer, mas também é deveras importante não deixar de viver.

Falando mais claramente, aquilo que quero dizer com o travar as nossas pequenas batalhas; estou a referir-me a não nos deixarmos abater pelo cansaço do sofrimento, estou a referir-me a fazer um esforço por estar com outras pessoas que me são significativas, estou a referir-me claramente em não nos deixar afundarmos no nosso próprio sofrimento, em não cair na armadilha da perda e sugar o significado da nossa própria existência.

Estou a referir-me claramente para lutarmos....e lutarmos porque quem teve de ir, gostaria que lutassemos; e lutarmos, porque mesmo cansados e sem força se optarmos, podemos dar luta e ganhar esta pequena grande batalha.

Estou a referir-me claramente em sermos fortes, mesmo quando estamos fracos, estou a referir-me a ter esperança mesmo quando perdemos a fé, estou a referir-me em criar um novo projecto de vida, mesmo quando estavamos satisfeitos com o que tinhamos, estou a referir-me para claramente erguermos a nossa cabeça, e olharmos para a luz adormecida que há em nós.

Estou a referir-me claramente que é tão importante aquilo que podemos alcançar como aquilo que já alcançamos; estou a referir-me que é tão importante a pessoa que eu era, como a pessoa em que me estou a tornar, estou a referir-me que é tão importante sofrer como é lutar.

Com muito respeito e ternura por todos, gostaria que não deixem de lutar por vocês mesmos, pela vossa vida, por tudo aquilo que poderão alcançar, por tudo aquilo que poderão viver, por todas as pessoas que poderão ajudar, por tudo aquilo que ainda poderão fazer, por todos os projectos que poderão alcançar, por todos os sentimentos que poderão construir; mas acima de tudo por todas as vossas recordações que somente vivem porque voces existem!

Há certas batalhas que percisam de ser travadas mesmo à partida sabendo que as vamos perder, o importante é ganhar a guerra, é voltar a viver e para isso temos de parar de sofrer!!! Boa sorte nas vossas pequenas batalhas.

Que o sofrimento da vida, faça-me entender o significado da minha existência.

sábado, 23 de maio de 2009

Comparar sofrimentos


O que doi mais?
Dizer que perdi uma parte de mim, ou explicar que tenho uma dor de tal maneira forte no meu coração, que me faz sofrer horrores?
Dizer que tenho um espaço vazio em mim que nunca mais vou preencher; ou sentir-me esmagado pelas recordações que tenho de quem partiu.

O que doi mais?
Sentirmo-nos sozinhos no nosso sofrimento, ou sentirmos que os outros não estão a sofrer como achamos que deviam de sofrer, e por isso, sentimo-nos revoltados, e por vezes com alguma raiva.

O que doi mais?
Sentir a angústia de sofrer por um passado que já não volta, ou sentir ansiedade por não poder realizar mais os projectos que tinhamos elaborado?

O que doi mais?
A dor dos pais? Dos filhos? Dos conjuges? ...

A dor que doi mais, para mim mesmo; é a dor que trago comigo, por isso não vale a pena compará-la com mais nenhuma, porque a minha dor é a maior de todas, porque é minha!

Por isso não vamos comparar sofrimentos de perda, pois esses sofrimentos são inerentes à história de vida de cada pessoa, ao significado que cada um construiu com o outro, aos projectos que tinha, as caricias que teve, à intensidade com que viveu, pois a medida do nosso amor é também uma das medida do nosso sofrimento. Se eu entender que a minha dor é a maior de todas para mim mesmo, e entender em simultâneo que a dor do outro, é a maior para ele mesmo, então entenderei que o principal é respeitar a forma como cada um sofre no silêncio do seu próprio ser. Respeitar os sentimentos de dor, de angústia, de revolta, por vezes de raiva e agressividade, outras vezes com surtos de choro e nostalgia, outras vezes ainda com uma enorme inércia ou com uma recusa da realidade, mas sempre com uma grande autênticidade na forma como o expressamos.
Por tudo isso, há que entender as diferentes formas de vivenciar, expressar e interpretar o sofrimento (tanto nosso como dos outros).

Há pessoas que reprimem o choro, mas no entanto choram sozinhas; há pessoas que são mais fortes que outras, mas no entanto tem momentos de fragilidade; há pessoas que são torres de marfim, mas no entanto essas torres um dia caiem; mas mesmo essas pessoas que á primeira vista não sofrem como a “maioria” das outras pessoas, mesmo essas, sofem tanto como essas outras; e sofrem pela medida do seu sentimento, e sofrem porque os outros não respeitam o seu sofrimento em silêncio, e sofrem porque não são compreendidas e aceites pela maneira autêntica como estão a sofrer, e sofrem porque não conseguem compreender como esses outros, que também sofreram e sofrem, não entendem que se possa sofrer de maneira diferente e sofrem porque além de sofrerem não têm ninguém para partilhar e entender o seu sofrimento logo, sofrem sozinhas.

Por isso meus amigos, e no meu entender o importante não é comparar sofrimentos, é aceitar o nosso próprio sofrimento, é compreender o sofrimento dos outros, que têm a sua maneira intima de sofrer, é partilhar as diferentes formas de sofrer para que todos nós nos apoiemos nesta longa caminhada que se for feita em conjunto é menos penosa, é menos longa é menos triste....

Seja como for, a caminhada de sofrimento que temos de fazer, iremos fazê-la; sozinhos ou acompanhados, é já uma opção de cada um, mas um coisa é certa, todos nós teremos que caminhar nesse trilho do sofrimento.

Na estrada da minha vida, perdi-te no meu olhar, e foi aí mesmo que te encontrei.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Quando Acontece...

Lembrei-me das crianças, dos adolescentes...
Quem de perto com eles convive, deve muitas vezes questionar-se sobre a melhor maneira de poder auxiliar a superar, ou a tornar mais facil a ausência ou perda de alguém que lhes seja próximo...
Depois de algumas leituras optei por transcrever um excerto do livro denominado Interiores, cujo autor é o Pedopsiquiatra Pedro Strech (2003):
"...Frequentemente encontramos rapazes ou raparigas de diferentes idades, que conheceram de forma esperada ou súbita a morte de familiares próximos. (...) Como se imagina são situações sempre muito dificeis e dolorosas (...). Frequentemente envolvem abordagens muito dolorosas, que também nos questionam sobre a essência da vida, a sua justiça, o seu significado mais profundo. A muito não épossivel responder, nem sequer comentar, tal a forma como inrompem. Que dizer de quatro irmãos, entre os oito meses e os sete anos, que perdem a mãe? De um rapaz adolescente que perde os dois pais?
(...)
Independentemente das suas idades, importa preservar a imagem do familiar na memória da criança. falar dele sempre que vier a propósito, responder à curiosidade de quem pergunta, facilitar o acesso à figuração de uma imagem (como fotografias), são tudo pontos que facilitam a reorganização psiquica face à perda. O oposto é negativo.
(...)
Como sabemos, todos os bocados da vida são conversáveis. Mesmo os mais dolorosos, injustos ou misteriosos, embora não existam receitas. Ou , com a única receita de tudo poder ser dito à medida da justa necessidade da criança. Mesmo quando o tema é a morte. Porque a vida tem sempre recursos, e desde que saiam pelo coração, está sempre bem."

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Luto e saudade...

Quando perdemos alguém que amamos, enfrentamos um período de vivência do luto, que é a adaptação à perda propriamente dita. A mente tem, assim, um trabalho pela frente: reorganizar internamente todos os sentimentos e afetos ligados à pessoa amada e perdida, assim como ao vínculo que existia com essa pessoa.

O trabalho do luto é árduo. A capacidade de fazer com que os sentimentos sobrevivam à morte é, ao mesmo tempo, uma grande tragédia e uma condição básica para ser humano. Não conseguimos simplesmente desativar os sentimentos e nem desligar os afetos. Pelo contrário: durante um tempo, eles não fazem outra coisa senão reclamar o objeto perdido, daí a tristeza e a prostração típicas da pessoa enlutada.

A má resolução do luto resulta em formas patológicas de tristeza, podendo ser determinante de síndromes depressivas. Mas o luto, por si só, é um processo normal e não pode ser confundido com os quadros de depressões clínicas.

Se o luto é trabalho, quando é que ele está concluído? A melhor resposta é a elaboração do luto, ou seja, a incorporação daquela perda. Isso demanda tempo e não há um caminho pré-estabelecido; cada um faz o seu. O que é possível para a mente cicatrizar essa dor é a assimilação da mesma, não a sua anulação. É por isso que há dor toda vez que se mexe na ferida deixada por uma perda, mesmo depois de muito tempo transcorrido desde seu acontecimento. Só que agora, com o luto elaborado, essa dor é suportável, e o vínculo que antes existia pode ganhar outro destino, como a saudade, por exemplo. A lembrança, assim, não evoca sofrimento.

Saudade, no fim das contas, é isso mesmo: um misto entre a dor da ausência e a alegria de verificar que aquilo que amávamos no mundo externo continua vivo e preservado no nosso mundo interno. Essa talvez seja a forma mais humana de driblar a morte, e serve como prova de que quem partiu não virou um finado, porque até mesmo o fim, no fim das contas, pode não ser assim tão absoluto.

domingo, 10 de maio de 2009

Percursos necessários de dor

Quem lida de perto com pessoas que passam por perdas dolorosas, não poucas vezes sente a impotência pela incapacidade de fornecer determinadas respostas solicitadas. Infelizmente, não podemos voltar a fazer viver quem partiu nem destacar nenhuma receita mágica anti-dor porque, realmente, não existe.
Doi quando caímos no chão, doi quando nos queimamos sem querer, doi quando torcemos um pé ou entalamos um dedo... tem que doer quando nos bate a notícia da morte de quem nós gostamos. E como um ou um dedo passam por uma espécie de "luto físico", até voltarem ao estado de equilibrio anterior, também a ferida da perda de alguém necessita desse tempo, desse espaço. Atenção por isso às mensagens de patologização do sofrimento. Vivemos num tecido social anti-dor que faz do sofrer ora um tabu ora uma compilação de programas televisivos.


Os discursos dos "Grandes", curiosamente, também acompanham as mensagens implícitas da sociedade que nos rodeia...por isso atenção à próxima vez que ouvir o seu técnico dizer-lhe "...está num luto patológico... não é suposto estar a sentir isso".

Como a partilha de percursos de luto pode ser importante para aqueles que estão estão igualmente a passar por um processo de luto, deixo-vos com um relato na primeira pessoa. Até Sempre.

" Desde que me lembro de mim mesmo, a minha avó esteve sempre presente nos meus dias, momentos de brincadeira, de partilha e até algumas chamadas de atenção que eram precisas! (...) Ainda sinto o seu cheiro e os abraços apertados que faziam do meu dia o melhor dia. (...) Tudo corria bem, e parecia perfeito, até lhe ter sido diagnosticado cancro da mama - não queria acreditar, não nos podia estar a acontecer tal coisa… (...) Foi um tempo muito complicado. Primeiro veio a quimioterapia e todas as complicações que daí surgiram; depois a difícil operação e ainda tratamentos de radioterapia. Incrivelmente, a minha avó era a pessoa que mais dava força à família, dizendo que tudo ia correr bem - foi ela que rapou o seu cabelo e programou a ida a Espanha para comprar uma peruca que delicadamente penteava todos os dias para ir à rua. Muitas foram as vezes que a acompanhava ao Hospital para consultas ou para realizar tratamentos de quimioterapia. (...) Tempos difíceis vivemos… (...) Quando tudo parecia estar bem, melhor, novas complicações da doença surgiram: as temíveis metástases tinham-se espalhado por alguns órgãos vitais. A minha condição de enfermeiro, permitiu que, infelizmente, percebe-se o que se iria suceder, qual iria ser o fim desta luta constante que a doença determina! (...) Muitas foram as idas ao médico, exames realizados e a resposta era sempre a mesma. Claro que nessa altura a minha avó esteve na minha casa, onde todos os dias o seu estado geral piorava mas, como habitual, tinha um sorriso no rosto e tentava alcamar-nos quando todas as forças pareciam ter esgotado. Posteriormente teve algum tempo internada no Hospital, mas pediu para ir para a sua casa, pois consciente disse que era lá que queria passar a sua última fase de vida! Durante uma semana não dormi e fiquei todo o tempo com ela de mão dada enquanto descansava - a minha avó sabia que o que tanto temíamos estava prestes a chegar. Todos os dias pedia-me para lhe ler umas páginas da bíblia e juntos rezávamos, toda a família se envolvia e ali ficávamos a escutar, quem sabe as ultimas palavras dela! Na madrugada de 29 de Maio de 2008, de mãos dadas, sozinhos no quarto, a minha querida avó já sem conseguir falar, olhava para mim com os olhos mais abertos que nunca, queria-me dizer algo, e eu sabia o que era…tinha chegado o momento! Trémulo, cheguei perto dela e disse que estava com ela naquele momento e sempre. Juntos, demos um sorriso e assim foi o último momento… - Dias antes, toda a família tinha-se despedido, a minha avó fez questão de juntar a família toda em redor de sua cama e todos, de mãos dadas, dissemos umas palavras que jamais serão esquecidas, a minha avó disse: “não tenham medo, para onde eu vou todos vamos um dia, vou estar lá a olhar para vocês, e um dia iremos encontrarmo-nos novamente”
Todos os dias ao acordar lembro-me das suas palavras e acredito firmemente que esse dia vai chegar, acredito que a minha avó está num sítio magnífico esem dor, acredito que olha por mim. Quando tenho saudades dela, costumo usar o seu relógio, fico a ver os minutos passarem e sinto o seu cheiro…sinto que está perto de mim e isso conforta-me! Sei que, como eu, existem pessoas que sofrem com a partida de quem mais amam, mas acreditem, eles permanecem vivos enquanto nós nos lembrarmos deles. Olhem para o céu e agradeçam por termos tido a sorte de conhecermos pessoas tão especiais quanto eles, recordem bons momentos que passaram juntos e sorriam, eles gostam que assim seja! Esta é a minha história, Obrigado avó Catarina por me teres ensinado tanto e por seres a pessoa fantástica que és, um dia irei ver-te e juntos vamos dar o tal abraço que tanto gostamos".

terça-feira, 5 de maio de 2009

Fluxo vital

Na vida estamos sempre a lidar com perdas. Algumas são naturais e orgânicas, enquanto outras são extremamente significativas e dolorosas, na medida em que representam uma grande ausência. Esta dor psíquica, pode ser arrasadora, situacional, frequente e reincidente. Lidar com ela requer a reorganização dos “nossos objectos internos”, a mudança dos nossos paradigmas e a aceitação da nossa própria vulnerabilidade.
Algumas perdas são elaboradas com maior facilidade, como a reparação de uma noite de sono bem dormida, enquanto noutras temos de “reparar” o nosso ego até que este esteja livre para se vincular a novas figuras significativas.
Lidar com a morte pode ser desconfortável, mas muitas vezes é inevitável encará-la. Não há como ignorá-la, deixá-la fora dos nossos projectos de vida, pois esta acompanha-nos a todo instante em cada perda.

A cada segundo as nossas células morrem e renovam-se, a nossa memória aos poucos vai-se esvaindo e recebendo novas informações, e, nas nossas relações, temos perdas e ganhos emocionais.
Enfim, tudo é um fluxo constante, perdas e ganhos, chegadas e partidas, encontros e despedidas, não podemos deter isto, mas como disse Chaplin:
“A vida é maravilhosa quando não se tem medo dela”, ainda que o medo seja uma faceta dela. E como uma experiência dolorosa pode ser uma experiência de vida no sentido de maturidade, de modo a extrair dela um ganho, opto por finalizar com uma frase de Nietzsche:

“O que não provoca a minha morte faz com que eu fique mais forte”.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

"Uma senhora de 47 anos, Isabel, que exerce a profissão de secretária, perdeu o marido, de 50 anos (Carlos), há quatro anos, num acidente rodoviário, quando a ia esperar ao aeroporto. Isabel revela sentimentos de agressividade que vinha sentindo, «por vezes eu ‘perguntava’ ao Carlos: porque me deixaste? Não vês a falta que fazes nesta casa? Agora que a vida nos corria tão bem é que decides abandonar-me?!... Passada toda aquela revolta, desfazia-me em lágrimas e culpava-me por ter sido egoísta, por lhe ter quase exigido que me fosse buscar…» E prossegue o seu relato, referindo a raiva sentida contra os familiares mais próximos, «tive conflitos frequentes com a minha filha, pois muitas vezes responsabilizava-me por não ter feito o pai feliz; já o meu filho remetia-se ao silêncio; senti que ele me evitava e isso irritava-me…». Relativamente aos restantes familiares, «apenas a minha irmã mais nova me deu algum carinho; todos os outros, quer fossem meus familiares quer do Carlos, trataram-me com toda a indiferença». Os amigos «não prestam; apenas vieram ao funeral e depois, quando me viam na rua, só se não pudessem é que não mudavam de passeio; ficamos com a sensação que temos peçonha…». Salienta que «fiquei, e por vezes ainda me sinto, revoltada com todos, o pessoal do hospital onde o Carlos esteve em coma, durante três meses, era extremamente antipático, o médico era horrível, não me dava informações nenhumas, acabei por fazer queixa dele ao director do hospital…» e, para finalizar, «até contra Deus me insurgi, eu que era crente… fiquei tão indignada com tudo que abandonei a Igreja…».”
in livro "Desatar o nó do luto" autoria de José Eduardo Rebelo...
Quantas vezes sentiu já esta dor? Quantas vezes fez já estas perguntas a si mesmo(a)... Para ajudar a ultrapassar esta situação é que a Apelo existe... a criação dos Capelos aparece para espalhar esta ajuda pelo país...
Nós na Capelo de Lisboa temos feito tudo o que nos é possivel para responder ás solicitações de quem nos procura... no próximo dia 9 teremos mais um grupo de entreajuda para viúvas e viúvos em lisboa... se precisa de nós contacte-nos e compareça... estamos á sua disposição...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

o mundo dos adultos...

Quando somos crianças, tudo o que nos rodeia é maravilhoso, a simplicidade com que conseguimos lidar com os "nossos problemas" é espantosa. As nossas principias preocupações centram-se essencialmente na brincadeira ou no jogo para o dia seguinte, (não quero por nada generalizar este raciocionio a todas as crianças, pois todos temos consciência que infeliezmente nem todas as crianças têm a possibilidade ou a sorte de crescer num ambiente familar estavél, saudável e harmonioso).

À medida que vamos crescendo estes "nossos problemas", por variadissimas razões vão-se tornando mais complexos, à medida que vamos tendo conciência de nós enquanto pessoa adulta, apercebemo-nos das nossas fragilidades e quão dificil é saber lidar com inúmeras situações imprevistas, devagarinho, vamos descobrindo que nosso bem estar e o bem estar daqueles que mais amamos a todos os nivéis não depende exclusivamente da nossa vontade...

A partir destas conclusões ou destes raciocionios, muitas vezes surgem os medos, as inseguranças, as fobias...

Através de toda a nossa experiência de vida e de tudo aquilo que vamos aprendendo com os outros e com tudo o que nos rodeia, aprendemos a adaptarmo-nos às novas situações que vão surgindo ao longo da vida, sejam estas boas ou más, podemos ter medo, mas não devemos deixar que ele nos vença ou se apodere de nós e consequentemente não nos deixe seguir em frente.

Na minha opinião um dos truques para combater estes "problemas do mundo dos adultos" consiste em saber aceitar o que o futuro nos reserva com serenidade e interiorizar o pensamento "EU VOU SER CAPAZ DE CONTINUAR A MINHA CAMINHADA!!"

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O fardo do silêncio


Se consigo estar em silêncio, é porque estou bem comigo mesmo, senão é porque estou preocupado, ansioso ou os fantasmas internos que me habitam, não me deixam descansar.
Estar em silêncio é também um exercicio de entendimento que fazemos com os outros, com o mundo e com o nosso prórprio ser.


É através do silêncio que percorremos as interrogações do mundo relacional e emocional que nos habita e nos faz ser quem somos.
É atravès do silêncio, que guardamos em nós, os nossos momentos significativos, para mais tarde recordar, e é com esse mesmo silêncio que encerramos em nós mesmos, o verdadeiro significado que nós damos à maneira como vivemos e experiênciamos todos os sentimentos e emoções.


Guardamos no silêncio do nosso ser e da nossa existência o significado e a essência significante.
Desde que te perdi, nunca mais ouvi, com o mesmo significado aquela palavra que tanto gostava de ouvir; desde que te perdi, nunca mais senti com o mesmo significado o mesmo passeio que faziamos; desde que te perdi, nunca mais fui ao nosso sitio especial, pois ele sem ti nunca mais será o mesmo.


Desde que te perdi, encerrei no silêncio do meu interior este sofrimento inerente ao nosso significado e aos nossos momentos, comportamentos, sitios e objectos significantes.
Desde que te perdi que me encerrei em mim mesmo para te tentar encontrar e vivermos como viviamos.Desde que te perdi, perdi-me a mim mesmo, e é no silêncio do nosso interior que sofremos a perda.

Nesse silêncio que só o nosso ser entende e necessita, e é nesse tempo de silêncio que emergem todos os sentimentos que não me sinto com vontade de explicar a ninguém, pois o que eu sinto, só no meu silêncio sofro e entendo, e somente num silêncio partilhado conseguirei exorcizar essa dor.

Não quero que ninguém me explique nada, e muito menos tenho vontade de explicar ou de me justificar a alguém, este sofrimento que sinto, e que encheu a parte vazia de mim; está agora a tomar conta do meu ser; e aqui está o verdadeiro perigo; pois se esse sofrimento tomar conta de todo o meu ser, eu simplesmente deixo de existir, e se eu deixo de existir o outro que habita em mim também deixará de existir.

Por isso com muita ternura, respeito, confiança, e sobretudo muito amor, que aprendemos a sofrer e a guardar esse sofrimento numa parte de nós. Ao lado desse sofrimento guardamos os significados únicos que aprendemos a construir com essa pessoa, e mesmo ao lado estão todas as nossas recordações, boas e más, pois até essas são importantes.

É nessa altura que levantamos a cabeça, “erguemos” a voz, limpamos o lago de lágrimas interno, e dizemos para nós próprios que esse sofrimento não vai crescer mais que eu mesmo, que esse sofrimento não vai sugar a vontade de viver, que esse sofrimento não vai tirar o significado que eu dou às coisas, que esse sofrimento não me vai impedir de sonhar, que esse sofrimento não me vai impedir de ser novamente feliz, que esse sofrimento não me vai impedir de voltar a sofrer, que esse sofrimento não me vai impedir de viver.


Estou vivo e sofri, porque tive a coragem de amar e de libertar quem teve de ir...nesse momento libertei-me a mim mesmo do sofrimento e guardei-te bem dentro do silêncio do meu ser para todo o sempre e sem nunca te esquecer.

“O homem só pode se encontrar, perdendo-se” (Sartre)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Reflexão....

A morte de alguém próximo que estimamos é com certeza uma das mais intensas experiências de perda que nos acontece. A dor vivenciada entrelaça-se no nosso dia a dia, afecta o nosso corpo e a nossa forma de encarar a vida.

Não adianta querer espantar a dor ou querer que passe rápido. O luto é um processo lento de reestruturação da vida agora sem a presença deste alguém que morreu.

No início custa aceitar esta nova realidade e a sensação inicial é de torpor. O torpor é uma reacção de defesa do organismo frente ao impacto, amortecendo-o de forma a dar tempo para a pessoa se organizar. Demora até a pessoa se adaptar a esta mudança tão significativa em sua vida.

No início é normal uma reacção de negação ao que aconteceu, a aceitar que não verá mais aquela pessoa que não contará mais com ela. Esta negação faz também parte deste processo de absorver o facto e acomodar as emoções.

Vários sentimentos podem ser experimentados neste momento, tais como: tristeza, raiva, culpa, saudade, etc. No entanto, a forma como esta pessoa morreu influencia na forma como vivenciamos o luto. As mortes súbitas, violentas ou por acidente geram com frequência sentimentos mais intensos, como ansiedade, impotência e raiva.

Na maioria dos casos são comuns manifestações físicas, como dor ou aperto no peito, cansaço, dificuldades para dormir e perda do apetite. O melhor não é reprimir esta dor, mas permitir a sua expressão. Reprimir as emoções pode ser bem mais sofrido, além de atrapalhar este processo de luto, prolongando-o. Com o passar do tempo os sentimentos vão perdendo a sua força e a vida aos poucos vai voltando ao normal.

A perda de um ente querido dá-nos muitas vezes a oportunidade de rever o estilo de vida que adoptamos deixando-nos mais conscientes da finitude da vida e da natureza mutável de muitas coisas.

Aceitar o luto é o primeiro passo para uma melhor resolução desta perda. É necessário ser compreensivo consigo e aceitar seus sentimentos. É também interessante compartilhar os seus sentimentos com quem confia, e que seja capaz de escutá-lo sem fazer julgamentos.

E é muito importante que a pessoa em luto se lembre que não está sozinha nesta dor, uma vez que ela faz parte de todos nós.

sábado, 11 de abril de 2009

"Quando eu estiver contigo no final do dia, poderás ver as minhas cicatrizes, e então saberás que eu feri-me mas também me curei".

Tagore

terça-feira, 7 de abril de 2009

URGENTEMENTE


É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
E a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O outro que habita em mim


O primeiro acto que fazemos quando nascemos é chorar. Esse choro reflecte uma necessidade biológica, mas também simboliza o choque que o recem-nascido tem em relação a um mundo completamente diferente daquele a que estava habituado inicialmente.

Á medida que crescemos, o sofrimento acompanha-nos na nossa vida, em experiências, em relacionamentos, em sonhos sobretudo na vivencia das emoções; penso que se reflectirmos bem vamos chegar à conclusão que o sofrimento é e será transversal na nossa vida. Por isso a pergunta que me faço é porque não estamos habituados a sofrer? Porque não aceitamos o sofrimento como algo que faz parte da experiência humana e sendo algo intrinsecamente nosso e individual?

No que diz respeito à perda de alguém significativo para nós, penso que um dos grandes problemas que contribuiu para o reforço do sofrimento centra-se essencialmente na ilusão que construimos de que o outro nos pertence.

Reparem, dizemos normalmente: “a minha mulher ou o meu marido”, analisando a frase, iremos reparar que esta se inicia com um pronome possesivo, o meu ou a minha, o que transmite um profundo sentimento de posse.

Ora os outros que nos são significativos não nos pertencem mas sim fazem parte de nós.

Os outros que nos são significativos, não o foram simplesmente pelo seu corpo, o seu cheiro ou o seu aspecto físico, mas sim por aquílo que foram e que representam para nós.

Os outros que nos são significativos, não o foram simplesmente pelas coisas materiais que nos deram, mas por aquilo que contribuiram para que sejamos quem somos.

Os outros que nos são significativos, não vão deixar de ser simplesmente porque partiram para um destino incerto; vão continuar a ser sempre significativos, porque vivem em nós, fazem parte de quem somos, daquilo que fizemos, da história que escrevemos, dos muitos sentimentos que partilhámos, das lágrimas que chorámos, enfim da vida que vivemos.
Gostaria de deixar uma palavra de esperança pois os outros que nos são significativos, afinal nunca os vamos perder de facto, enquanto viverem em nós.

Por isso gostaria de deixar uma palavra de conforto, pois o sofrimento de perda, depois de resolvido, transforma-se numa recordação reconfortante, que nos acompanha e nos aconselha nos nossos momentos mais solitários.

Gostaria também de deixar uma palavra de forte empatia, pois todos nós já sofremos, pois todos nós nos compreendemos através desse sofrimento, e sómente através da partilha dos nossos sentimentos, poderemos “cristalizar” o nosso sofrimento e transformar aquilo que nos faz sofrer, em algo que nos faça recordar e sorrir nostalgicamente, e nos preencha novamente o vazio que pensamos ter.

Por tudo isso aqueles que foram, continuam a ser e a viver dentro de nós até que nós sejamos quem somos, até que a nossa história perdure na eternidade das existencias.

“O que fazemos em vida, ecoa para a eternidade.”

segunda-feira, 30 de março de 2009

Desabafo...

O dia era de primavera, mas de repente a noite tornou-se em inverno, porque tu decidiste passar pelo Outono e deixar-te cair desta vida para algo que todos temos como certo e que ansiamos seja melhor do que aqui…. Morreste, sem que nós te tivéssemos dado licença, nem tivéssemos tido tempo de o evitar.

Tanta coisa ficou por te dizer, tantas partilhas, muitas alegrias, algumas inseguranças, algumas tristezas, muitos medos e muitos novos passos.

Sei que agora onde estás me podes ver e ouvir, por certo dás-me muitas vezes as respostas ás perguntas que te faço mas que infelizmente não consigo ouvir, sendo assim vou pôr as coisas em dia e contar-te tudo o que deixei por dizer… espero que não te arrependas de ter sido meu pai e que me perdoes o ter andado por vezes tão perto mas tão longe…

Vou contar-te todos os dias especiais e todos os menos importantes para que nada, desta vez, fique por dizer… sendo assim começo pela frase nunca dita, Gosto muito de ti e és o melhor pai do mundo.
Foi assim que comecei uma listagens de desabafos que não fiz com o meu pai durante o tempo em que o tive presente, pensei sempre que o dia de ele partir estava longe e que havia muito tempo para o fazer.... mas o tempo fugiu... não deixem o vosso tempo fugir como a areia por entre os dedos e digam a quem merece ouvir: Gosto muito de ti...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Felizmente Felizes


"A vida é uma caminhada que se espera que venha a ser longa. Desejamos experimentar que crescemos, que nos tornamos mais conhecedores do mundo, que nos sentimos mais seguros e livres nas nossas emoções, que julgamos com mais sabedoria e tranquilidade tudo o que decorre à nossa volta. Esse é o caminho da vida que ambicionamos ter, e, pela curiosidade incessante que se aloja dentro de nós, todo o tempo disponível nunca é suficiente para o que julgamos indispensável alcançar. O fim do ciclo de todas essas experiências, a morte, constitui-se assim como um espectro assombroso e temido que há que afastar, a todo o custo, do universo do nosso pensamento. Apesar dos quadros de esperança que possamos esboçar para a mantermos longe de nós, a morte procura-nos em qualquer momento. Atravessa todas as estapas da nossa vida e, por isso mesmo, devemos estar preparados para a receber com serenidade. A evolução da vitalidade física, da sabedoria, da inteligência, das emoções e do relacionamento social que se desenrola ao longo da nossa existência condiciona o modo como encaramos a morte nesse percurso: no início da vida, desconhecemo-la; mais tarde, temos dificuldade em atribuir-lhe significado; na adolescência, quando queremos vincar a nossa personalidade, desafiamo-la até; enquanto adultos, tentamos ignorá-la; e, na velhiçe, preparamo-nos para ela."

Rebelo, J. E. (2007). Desatar o nó do luto: Silêncio, Receios e Tabus, 3ª edição, Lisboa, Casa das Letras.

"Num cruzeiro que atravessa os sete mares imensos da vida, entre bonanças de alegria e felicidade e tempestades de tristeza e infortúnios, vogamos na certeza de um porto seguro, o que cimentamos em cada dia que passa, pedaço a pedaço, com a placidez do incansável amor."

Rebelo, J. E. (2009). Amor, Luto e Solidão, 1ª edição, Lisboa, Casa das Letras



Foi com grande entusiasmo que assisti à apresentação do novo Livro "Amor, Luto e Solidão "do Dr. José Eduardo Rebelo.

A quente e agradável tarde que se fazia sentir deu lugar ao passeio das inteligentes palavras do autor e do Dr. Moita Flores que nos convidaram a uma reflexão sobre os territórios da morte, luto, solidão e amor.

Realmente quanto maior for o espaço ocupado pelo outro no nosso ser, maior será a dor da despovoação física deste mesmo outro. No entanto, a morte pode assumir diversas perspectivas, consoante aquelas que o sujeito lhes queira fazer assumir. Será fácil e um pouco doloroso dizer e, sobretudo sentir, que a pessoa querida perdida estará viva enquanto estiver presente nas nossas doces e suaves memórias, no entanto, são estas doces e suaves memórias que nos restam. Como foi dito na apresentação, só o rearranjo deste puzzle de memórias e de sentires no nosso mundo interno, fará com que consigamos realizar novos investimentos afectivos, novos passos em direcção àquilo que será sempre o nosso desejo intrinseco e fiel: sermos felizmente felizes.


Até sempre.


André Viegas

segunda-feira, 23 de março de 2009

Meu pé de laranja lima....

Um resumo de um livro fascinante que conta a história veridica de José Mauro Vasconcelos, quando na sua infância descobriu a dor da perda de alguém muito amado e importante.... Leitura acessível e uma história de "amor" pela vida e pelos sentimentos humanos...



"Um garoto chamado Zezé, tinha 6 anos (ou 5 mas gostava de dizer que ele tinha seis). Ele vivia em uma casa de tamanho médio, seu pai se chamava Paulo, e estava desempregado, sua mãe, que por causa de seu marido desempregado trabalhava até tarde numa fábrica, e mais três irmãos: Totoca, Jandira e Glória. Por causa do desemprego de seu pai, eles foram obrigados a mudar para uma casa menor, onde o garoto conheceu Minguinho seu pé de laranja lima, que fica sendo seu melhor e único amigo. Como o moleque sempre foi muito arteiro, recebeu muitas palmadas e era surrado constantemente, apesar de que as vezes não tinha culpa do que acontecia. O garoto tinha cinco anos, aprendeu a ler e por isso foi a escola mais cedo. Lá ele era um garoto muito comportado e gostava muito da professora Célia Paím, ao qual, levava flores todos os dias, e apesar de contarem a ela o diabinho que ele era, ela não acreditava. Um dia o garoto foi pegar uma carona do lado de fora do carro, mas o carro era de um português chamado Manuel Valandarez, que tinha o carro mais bonito da cidade. O português viu isto e lhe deu uma surra que o garoto jurou se vingar. Mas o tempo foi passando e o garoto ia se esquecendo. E num dia ele pisou num caco de vidro que abriu um corte, mas mesmo assim o garoto ficou decidido de ir para a escola. Enquanto atravessava uma rua o português viu o garoto e pediu para ver o corte. Vendo aquele corte enorme ele levou o garoto de carro até o hospital, e fizeram muitos ponto nele. Desde então eles ficaram muito amigos e o português foi lhe tratando como um filho, sempre muito carinhoso. Foram até pescar algumas vezes e passavam a tarde toda juntos. Outras vezes iam tomar sorvete e fazer outras coisas. Outra vez o português deixou o menino andar de carona em seu carro, o português o convenceu até de não falar mais palavrões. Eles eram muito amigos até que ele recebeu a notícia que o carro do português foi esmagado por um trem, o português não resistiu e morreu. O garoto entrou numa depressão profunda, e como a família desconhecia a sua amizade com o português, eles acharam que foi a notícia que seu pé de laranja lima seria cortado. O garoto permaneceu dias comendo pouco, sem falar, deitado em sua cama e querendo morrer. Mas com as palavras de Glória, sua irmã preferida, ele conseguiu retornar a sua vida normal."

quinta-feira, 19 de março de 2009

A grandeza das coisas


"Os reis deixaram aqui as suas coroas e os seus ceptros; os heróis, as suas armas. Mas os grandes espíritos, cuja glória estava neles e não em coisas externas, levaram com eles a sua grandeza".


A grandeza das coisas muitas vezes é nos deixada por aqueles que partem. Abalados na dor do desligar corporal do outro, percebemos que, de alguma forma, continuamos o outro através de gestos, pequenos bafos de felecidade que, mesmo em microsegundos, duram uma eterninadade.

Somos emocionalmente inteligentes para prosseguirmos para as coisas que atraem o nosso bem estar. Quando esse bem estar parece nunca mais chegar, ai é sinal que precisamos de uma pequena ajuda paraa percebermos como poderemos chegar a um bem estar.

Com pedras ou não no caminho, o percurso faz-se de abalos gravitacionais. Mas o que nos atrai? Que híman nos chama hoje?

No fundo, com a perda de alguém ou algo, aprendemos que só nos podemos dar, se nos arriscarmos sentir...e muitos, também, não querendo mais sentir, acabam por não se darem mais mas, afinal, só pode voar quem arriscar cair!


À família e aos amigos de todos aqueles que partiram, a Apelo espera que este momento de pesar, de dor e sofrimento passe o mais breve possível. Queremos agradecer pela confiança que têm demonstrado no procurar a Apelo. Acreditamos que esteja a ser árduo, mas também sabemos que as boas memórias serão eternas e que a força que herdaram com a tal pessoa especial vos ajudará a enfrentar as próximas batalhas, a viverem os próximos dias de chuva e de sol! Estaremos aqui nesses dias!


Até Sempre.


André Viegas

segunda-feira, 16 de março de 2009

"Amor, Luto e Solidão"


Está agendado para 26 de Março o lançamento em Lisboa do novo livro do Presidente da Apelo, Dr. José Eduardo Rebelo, que se intitula "Amor, Luto e Solidão". Será às 19h00, na FNAC do CC Chiado, e terá a apresentá-lo o Dr. Moita Flores.
Após uma prévia abordagem, sensível e rigorosa, sobre perdas emocionais profundas no livro Desatar o Nó do Luto, o autor revela-nos, nesta obra de leitura acessível, uma perspectiva alargada e compreensiva sobre a construção, a manutenção e a perda de afectos. Amor, luto e solidão são os vértices de um triângulo de existência percorrido no folhear das páginas, em que são dadas respostas a como construir e preservar o amor conjugal, que trilhos adoptar no luto e se é inevitável a solidão.
Neste livro, o leitor realiza uma viagem simples, serena e aconchegante ao mundo da construção, da manutenção e da perda dos afectos, seguindo um roteiro em que o amor é a força motriz que o fará transpor de forma sadia o tenebroso túnel do luto e da solidão.
A NÃO PERDER!

quinta-feira, 12 de março de 2009


Depois de algum tempo afastada, já com muitas saudades, hoje deixarei uma palavra diferente. Hoje o post, será para aqueles que acompanham as pessoas em luto. Deixo aqui os principios da ajuda a uma pessoa em Luto.

- Ninguém expressa nem reage da mesma forma ao luto.
- Evitar frases como "Todos um dia morremos" "és jovem podes ter outro filho" "segue em frente" "podes voltar a casar".
- Não comparar tragédias como "e se em vez de perder uma pessoa fosses como o joaquim que perdeu a familia toda?"
- Identificar sentimentos de raiva, irritação e culpa.
- Normalizar as emoções intensas.
- Esclarecer que a pessoa se vai sentir pior, antes de melhorar.
- Não temer revelar os próprios sentimentos.
- Ouvir a história da perda todas as vezes que a pessoa quiser falar nela.
- Avaliar as defesas para lidar com situações adversas.
- Identificar as alterações no mundo da pessoa: novas rotinas, novos papéis sociais...
- Facilitar o relacionamento com novas pessoas.
- Abordar os problemas das datas (aniversário, morte, dia do pai, dia da criança)
- Explorar o lado positivo de criar novos laços sem sentimento de culpa.
- Ajudar a restaurar a confiança em si.

Espero assim que este post ajude também aqueles que nos acompanham nesta longa jornada... Amanhã vem sempre um novo dia.

sábado, 7 de março de 2009

Reportagem sobre pais em Luto

http://www.youtube.com/watch?v=YiLGCS5Zarw

Opto hoje por deixar uma reportagem sobre Pais em luto, uma reportagem em que muitos de nós certamente nos vamos rever, mesmo que a perda não tenha sido um filho.

É importante sabermos que não estamos sozinhos na dor que sentimos e que há pessoas disponíveis para nos ajudarem nesta caminhada.
É importante pedirmos ajuda, merecemos.

Deixo o contacto duma profissional da área da psicopedagogia clínica, com formação avançada em saúde mental e com vários trabalhos publicados, para quem quiser ajuda especializada.As consultas são realizadas em âmbito de consultório privado em Lisboa (Campo Pequeno) e em Setúbal (Clínica da Família).

Para mais informações contactar Drª Ana Cardoso: 916286042