Centro de Apoio à Pessoa em Luto

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Lição de Vida

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Um post diferente, espero que gostem,

Beijinho

sábado, 24 de janeiro de 2009

O princepezinho e a raposa...

(...)
Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho.

- És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
(...)
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho.
- Estou triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa.
- Não estou presa...
(...)
- O que é que "estar preso" quer dizer - disse o principezinho?
- É a única coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa.
- Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
(...)
- Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor...Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
(...)
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...O principezinho voltou no dia seguinte.
(...)
Foi assim que o principezinho prendeu a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho.
- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
(...)
E então voltou para o pé da raposa e disse:
- Adeus...- Adeus - disse a raposa.
Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com aminha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela.
Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...

(O Principezinho - Antoine de Saint-Exupéry)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009


Quero deixar um beijinho à nossa Carla que hoje estará na Rádio Clube Português, no Ponto de Escuta a deixar a sua palavra de conforto a todos os ouvintes que entrem em contacto entre as 0:00h e as 3:ooh da madrugada.



Nas suas últimas horas de vida, os computadores do mundo inteiro, transmitiam este texto via internet onde Gabriel Garcia Marquez, consciente que vivia os seus últimos dias, falou acerca da morte.




"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapos e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem.
Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom gelado de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestia-me simplesmente, atirava-me de bruços ao chão, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse para o derreter.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas – amo-te, amo-te.
Aos homens, provava-lhes como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança, dava-lhe asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi convosco, os homens...
Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo do seu pai, o tem prisioneiro para sempre.
Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender convosco, mas, no final, não poderão servir de muito porque quando me olharem dentro desse computador, infelizmente estarei morto."

Gabriel Garcia Marquez

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Epitáfios da vida


Recentemente fiz uma formação na área do luto e, curiosamente, um dos exercícios que nos propuseram, imaginem, foi o de escrevermos o no nosso próprio epitáfio.

À primeira vista, parece ser uma tarefa fácil, sem nada de mais, mas foi curioso, no entanto, constatar a mobilização de uma resistência significativa por parte de todos em realizar o pedido.

Foi-me difícil por na pele de um já não eu uma vez que continuava a ser e a sentir, achando na altura impossivel projectar-me nesse espaço finito da vida.


Alguns epitáfios foram lidos e o silêncio parecia querer invadir o espaço. Em tom de partilha deparámo-nos com o facto de sentirmos que ainda tinhamos muito projectos a serem realizados e que se o tal dia fosse amanhã, não iriamos completos.

Pessoalmente, pensei nos gosto de ti que ainda me faltavam dizer e como ficaria chateado (!) ao morrer sem os dizer, sem os sentir com as pessoas de quem tanto gosto e que me habitam todos os dias pelas tantas coisas que sou.


A formação continuou e o famoso trabalho de casa espreitava na forma de um pedirmos a alguém especial para escrever o nosso epitáfio.


Assim o fiz e o resultado foi o seguinte:


"Partiste mas a tua essencia permanecerá para sempre em cada um de nós.

Um grande psicologo mas acima de tudo uma grande pessoa, o grande André."


Os dias passaram e hoje, ao pensar neste exercício, deparo-me com a certeza de que aquilo que de bom significámos para as nossas pessoas queridas, que já partiram, não se alterará e constitui-se como algo que temos que continuar a dar forma.


Desejo não terem mais que escrever o espitáfio de ninguém, mas sei que o facto de terem significado algo especial para alguém, constitui-se como um significado para aquilo que ainda podem ser.


O que nos diria a nossa pessoa querida hoje?


Força e até sempre.


André Viegas





segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

É sempre com um enorme entusiasmo que recebo novidades da Carla, Coordenadora da Capelo Lisboa, especialmente quando me diz que alguém novo a contactou. É bom saber que começamos a pouco e pouco a desmistificar todo o conceito de Associação e começamos a compreender os verdadeiros fins que têm as pessoas que por detrás dela estão.
Quando entrei para a Apelo, tinha também sofrido uma perda muito dolorosa recentemente. Falei dela no meu último post. Eu sei que sou muito jovem, que muito provavelmente terei uma longa vida pela frente, mas isso não mudou minimamente o que senti. A verdade é que foi aqui que aprendi a encarar a realidade e a compreender todo o processo que estava a passar. Estudo psicologia, é claro que conhecia várias teorias, mas a verdadeira partilha de sensações que aconteceu no primeiro grupo de Entreajuda, com duas senhoras absolutamente fantásticas com as quais teria ficado o dia inteiro a conversar, e embora as nossas perdas fossem de pessoas com papéis completamente diferentes nas nossas vidas, foi realmente a forma mais gratificante, calmante para superar tudo, e isso supera qualquer estratégia ou processo terapêutico que eu própria venha um dia a exercer em outras pessoas, dada a minha futura profissão. Por instantes vi-me reflectida nas palavras delas. Como futura psicóloga aprendi que é no falar que reside a esperança. Quando finalmente conseguimos falar abertamente sobre aquilo que a nossa alma sente, e choramos ao contar tudo isto, ou rimos e choramos, toda a libertação dessas sensações trará a "anestesia" que precisamos para prosseguir. Eu não acredito que a dor de ter perdido alguém algum dia termine, mas acredito vivamente que podemos aprender a viver com ela, e podemos aprender a aceitar o rumo que a nossa vida nos deu.
Ainda relativamente a isto tudo, termino com uma frase que uma Professora minha um dia proferiu numa aula, e que ao contactar com a experiência de algumas pessoas que têm recorrido à Apelo me tem ocorrido muita vez.

" Quem perde o cônjuge torna-se viúvo, quem perde os pais torna-se orfão, como podem constatar existe uma palavra para estas duas perdas, mas não existe em nenhuma língua a palavra que traduza a dor de perder um filho."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Os Pequenos Pormenores...


Os dias, os meses e os anos parecem querer avançar a uma rapidez estrondosa e a nossa continuidade parece porém, por vezes, atribulada com vissicitudes de percurso que roubam elementos essenciais ao nosso projecto feliz.

Dormentes, baloiçamos entre movimentos de negação e derrames lacrimais que parecem fazer esqueçer aquilo que queremos continuar a ser.

O meu desejo para este ano de 2009 não se entrelaçará com banais palavras, mas encontrará forma no desejar de abraços aos pequenos grandes sonhos de cada um, que conferem força necessária para continuarmos a continuar a ser aquilo que quisermos...felizes.


O desespero que nos rouba o sono está relacionado com a absolutização de valores e situações que julgamos não terem de acontecer... a desabsolutização progressiva de determinados aspectos fará com que nos apercebamos que podemos, aos poucos, ganhar forças com os pequenos pormenores que dão um colorido substancial à forma de como passamos a ver as coisas.


Dispeço-me, assim, com a sugestão de visionamento de um filme que retrata o prazer que podemos tirar dos pequenos pormenores dos dias, frios e menos frios. É imperdivel! Chamo a atenção da fantástica banda sonora!


Um 2009 cheio de pequeninas coisas felizes!
Até sempre,
André Viegas


Sugestão de filme:

Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, ou O fabuloso destino de Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet, 2001



domingo, 4 de janeiro de 2009

Hoje

Quero começar por desejar um bom ano de 2009, com muita paz interior, saúde e amor a todos.

Hoje é um dia em que o meu coração está apertado. É daqueles dias em que todos os problemas quotidianos tomam proporções mínimas quando comparados com a sua ausência. Hoje o meu avô faria anos. E este é o primeiro aniversário em que ele não os faz realmente. É uma daquelas datas em que preciso sofrer. Preciso estar sozinha para viver e sentir aquilo que dói. Mais, preciso saber onde dói. Não quero ouvir um “tens de seguir em frente” ou um “ainda tens muito para viver”. Quero ouvir o silêncio da compreensão de, quando perdemos alguém que amamos muito, um pedaço de nós morre também, temos de fazer o luto de todos esses pedaços que se partiram e perceber mais uma vez qual é a nossa identidade, que papel ainda restou. E sabes uma coisa avô? Não existe um único dia em que não me arrependa que o meu orgulho não me tenha deixado dizer-te mais vezes que te adorava, e que não te possa dizer as saudades que hoje me sufocam.
Um beijinho e até um dia,

Andreia Ribeiro