Centro de Apoio à Pessoa em Luto

domingo, 25 de outubro de 2009

Sentimentos “redondos”


Sentimentos “redondos”

A raiva, a melancolia, a tristeza profunda, a angústia,o ódio (entre outros), são sentimentos que temos de ter a humildade de reconhecer que para os sentirmos, temos de abraçar esses sentimentos de uma forma “humana”, ou seja de uma forma afectiva, receptiva e com muita prudência.

Estes sentimentos além de serem “redondos”(ou seja, preenchem-nos na totalidade sem espaço para os outros sentimentos e emoções) são também intensos, e ao contrário de outros, alimentam-se deles mesmos e do nosso próprio sofrimento interno, fazendo com isso um ciclo de depêndencia em que a causa que provocou esse mesmo ciclo, reforça-o positivamente; alias além de o reforçar positivamente faz com que ele ganhe, cada vez mais, uma maior intensidade, isto porque quanto maior for esse sofrimento maior é a sensação de impotência do sofrente (ou seja daquele que sofre), quanto maior for esse sofrimento, menor é a capacidade de liberdade limitada que a pessoa tem; quanto maior for o sofrimento, menor é a vontade de viver e de Sêr.

Depois de perdermos alguém, emerge em nós um sentimento de raiva, de impotência, de descontrolo, de mortalidade, de tristeza profunda; e por fim, em alguns de nós o último estado de alma que fica é um vazio, um enorme vazio, um profundo e triste vazio, sem barulho, sem cores, sem cheiros, sem toques, sem ninguém.... No entanto rapidamente apercebemo-nos que esse vazio que sentimos e que tomou conta de nós, não é um vazio real, mas um vazio povoado pela nostalgia das nossas recordações internas.

Este vazio, não sendo um verdadeiro vazio, preenche intensamente o significado do nosso Ser; significado esse que deixou de ser um Ser para amar e viver, e passou a ser um Ser para relembrar e sofrer.

Ora há que romper com isto mesmo...há que gritar bem alto que estamos aqui para viver e sermos felizes, há que aproveitar o tempo que temos não para chorar o que fomos e o que tivemos, mas para vivermos o que tivermos que viver (seja isso o que for).

É muito mais fácil chorar e sofrer que viver, é mais fácil relembrar que voltar a construír, é mais fácil ficar no passado que percorrer o futuro, é mais fácil e comodo centrarmo-nos em nos mesmos que partilharmos o nosso Ser; é mais fácil sonhar que viver, é mais fácil ficar no chão depois de cair, do que levantarmo-nos novamente e tornarmos a cair; é mais facil não magoar ninguém por medo de magoarmos todos do que magoar alguém e perder a pessoa que magoamos.

E agora dizem alguns de vocês: - é fácil falar...

Sim é verdade, é fácil falar, o dificil é fazer, é concretizar aquilo que estou a dizer, é lutarmos cada um de nós pelo direito intrínseco de ser feliz e de ser Ser.

Sim é verdade é facil falar, o dificil é fazer...

Antes destas duas folhas que estou aqui a escrever estarem assim; antes estavam vazias; com o seu enorme manto branco existencial a sussurrarem-me ao ouvido – escreve...escreve...escreve.

Em vez de ter medo de escrever, em vez de ficar bloqueado no meu passado e no meu sofrer, em vez de desistir, em vez de ter deixado estas duas folhas em branco ; escrevi-as, partilhei-as com vocês que me estão a ler o que sinto, o que penso e sobretudo um pouco daquilo que sou.


Não se escondam nas malhas intensas do sofrimento, rompam com o ópio da dor, e da nostalgia negra .... lutem por vecês mesmos....vale sempre a pena, partilhar o que fomos, o que somos e sobretudo viver o resto do tempo que temos o melhor possível.

E como dizia o nosso querido Raul Solnado:” façam o favor de ser felizes!

1 comentário:

Dolores Spínola disse...

Já vi esse coração em algum lado, ferido, com o olhar embaciado, sem conseguir encontrar uma saida para esses "sentimentos redondos"...então foi construindo uma armadura à sua volta onde nem um raio de sol consegue entrar, onde o desacreditar no que o rodeia é cada vez mais forte, como se a vida deixasse de valer a pena.
Não nos pudemos deixar cair nesse fosso, os dias que vão ficando para trás já não os temos volta, não serão nos dado novamente para os aproveitarmos melhor,esses já os perdemos.
Cada um tem as suas razões para se sentir injustiçado, mas aprendamos com essas provas da vida, cresçamos com elas, faz parte da nossa evolução enquanto seres. O fecharmo-nos só vai atrasar esse crescimento, para quê escolher este quando temos outros caminhos?????
Forçaaaaa, comecem HOJE amanhã pode já ser tarde.